in

Viver na pobreza ou viver da pobreza!

A pobreza extrema é uma ameaça para a vida humana. Significa não ter alimento suficiente, água e combustível para se aquecer ou cozinhar, bem como casa adequada, cuidados com a saúde e acesso à educação.

Dados das Nações Unidas referem que “783 milhões de pessoas vivem abaixo da linha de pobreza internacional de um euro e sessenta e quatro cêntimos (1,64 €) por dia.

Há quem refira que a pobreza afeta mais de 1 bilião de pessoas no mundo!

O primeiro de dezassete Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da agenda 2030, que devem ser implementados por todos os países do mundo durante os próximos 12 anos, continua a ser ”acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares”.

Desde os anos oitenta que Alfredo Bruto da Costa investigava a pobreza. “No passado, a pobreza era definida, fundamentalmente, em termos de rendimento (ou orçamento) familiar e das necessidades de sobrevivencia (em sentido fisiológico)”.

A evolução do conceito de pobreza COSTA (1984) agrega várias dimensões que procuram enquadrar novas realidades associadas à pobreza.

“A pobreza pode ser definida como uma condição humana caraterizada por privação sustentada ou crónica de recursos, capacidades, escolhas, segurança e poder necessários para o gozo de um adequado padrão de vida e outros direitos civis, culturais, económicos, políticos e sociais” (Comissão sobre Direitos Sociais, Económicos e Culturais, das Nações Unidas (2001) in COSTA et al (2008).

A pobreza está diretamente relacionada com ter privações, enquanto a desigualdade se refere a uma posição de desvantagem em relação à riqueza média de um país (pode ou não implicar privações).

SEN (1992) referia que “Embora pobreza e desigualdade sejam conceitos relacionados, um não se confunde com o outro”.

Segundo PAUGAM (1993), “o conceito de nova pobreza vem sendo utilizado a partir dos anos 80 para se referir à população atingida pela crise e para denunciar a ineficácia das políticas.”

A pobreza dinamizou redes de solidariedade nas famílias todavia também estas furadas segundo FERREIRA (2014) “Na actualidade, em tempos de globalização e de concepção neo-liberal dos direitos sociais, há um retorno cada vez maior às formas de ajuda não-formais. Contudo, quando se está perante uma população generalizadamente pobre, sem distinções marcantes de classe social , havendo “pobreza integrada” na maioria das famílias, é difícil haver solidariedade familiar, porque todos são pobres.”

Na memória permanece o projeto de investigação científica “Pobreza Absoluta em Portugal”, para estimar o nível adequado de rendimento em Portugal, no qual infelizmente não pude participar.

Injustamente afastado por um concurso público, pejado de irregularidades, que não foi anulado por reclamação nem pela incompetência de advogada que deixou prescrever o prazo. Mas sobre este assunto um dia hei-de escrever outro artigo que engloba diversos temas como os concursos públicos, o nepotismo versus a meritocracia, e até ausência de corporativismo (espírito de classe profissional).

Dar o peixe, ensinar a pescar ou dar a cana não são suficientes. É preciso verificar se a pessoa tem condições para pescar e averiguar se o rio está abastecido.

Socorro-me da máxima “pensar global e agir local” para dar um modesto contributo para a resolução da problemática porque, se a nível global a pobreza é um problema político, a nível local depende da vontade de cada um e das sinergias que reúna.

“I have a dream”.

Confesso que me ficou na memória a apresentação de uma obra notável, na fundação Calouste Gulbenkian, a comunidade auto-sustentável San Patrignano que hei-de ir visitar um dia e à qual convido a conhecer.

O caminho faz-se andando e enquanto houver estrada para andar pretendo implementar este projeto social numa das associações em que sou dirigente.

Conforme se pode ler no seu site “San Patrignano é uma comunidade para a vida que acolhe os que sofrem de dependência de drogas e marginalização e ajuda-os a encontrar o seu caminho mais uma vez graças a um programa de reabilitação que é acima de tudo, um programa baseado no amor. É livre, porque o amor é um presente.

Ele oferece uma nova vida para as famílias daqueles que sofrem, que encontram conforto e apoio na orientação confiável e especializada que a comunidade e seus voluntários oferecem.

É um compromisso para a construção de uma sociedade melhor, graças a inúmeros projetos destinados a prevenir o abuso de drogas. Em sua busca pelo bem comum, San Patrignano está aberta ao mundo exterior com atividades específicas em escolas, eventos internacionais de estudo, programas especiais de grande alcance e batalhas constantes contra o vício.”

Provavelmente nesta comunidade os dirigentes não recebam altos rendimentos habituais nas IPSS´s portuguesas (quer sejam rendimentos em espécie ou em bens móveis ou imóveis).

Viver na pobreza ou viver da pobreza!

Costumo dizer que em algumas IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Social) existe um pote de mel porque os dinossauros não as largam !!!! Quando presidentes e dirigentes, estejam as contas bem ou mal, continuam a sugar o mel destas IPSS, quando o Estado – seu grande financiador – se demite de fiscalizar por variadas desculpas ainda que estas organizações são do direito privado mas recebem dinheiros públicos.

Tantas organizações que continuam a viver da pobreza que dizem querer a erradicação da pobreza mas que continuam os seus excessos.

Tal como PINTO (2015) não acredito “Nas estratégias nacionais de combate à pobreza, quando servem sobretudo para distribuir dinheiros pelas organizações e fomentar a subsidiodependência”

Por exemplo as Religiões que começam, na teoria e na práxis, na pobreza, e acabam sempre com um Império devastador! Os pobres, ocupam em todas as religiões lugar de destaque, mas, dez ou mais séculos depois quais os resultados ? A erradicação da pobreza é uma miragem.

Servir a pobreza para a erradicar ou servir-se da pobreza para viver à grande e enfiar um belo penacho social ?

As falhas na fiscalização das IPSs´s de quem tem a tutela, Instituto da Segurança Social (ISS), são evidentes e os casos raríssimos proliferam pelo País.

Defendo que é por aqui, também, que finalmente vai surgir a afirmação dos assistentes sociais em Portugal.

Para que não tenha sido em vão as vidas que Alfredo Bruto da Costa, assistentes sociais e outros académicos, dedicaram ao combate à pobreza em prol de uma sociedade mais justa e mais equitativa.

Bibliografia:

  • COSTA, Alfredo Bruto da. (1984). “Conceito de Pobreza”, in Estudos de Economia, Vol. IV, n.º 3, pp.275-295.
  • COSTA, Alfredo Bruto da. (Coord)., BAPTISTA, Isabel., PERISTA, Pedro., CARRILHO, Paula. (2008). Um Olhar sobre a Pobreza. Vulnerabilidade e Exclusão Social no Portugal Contemporâneo. Lisboa: Gradiva.
  • FERREIRA, Aida. (2014). Serviço Social e Desemprego de Longa Duração. Lisboa: Editorial Cáritas.
  • PAUGAM, Serge. (1993). La socleté française et ses pauvres. Paris: PUF.
  • PINTO. Henrique (2015). “Único caminho capaz de terminar com a pobreza” in Lisboa: Visão.
  • SEN, Amartya K . (1992). Sobre conceptos y medidas de pobreza. México: Comércio Exterior, v. 42, n. 4, pp. 310-325.

Webgrafia:

Sites visitados em 31 de agosto de 2019:

  • www.sanpatrignano.com
  • www.un.org/sustainabledevelopment/poverty
  • www.visao.sapo.pt

Também gostaria de publicar o seu artigo de opinião no nosso site? Clique aqui.

Vote nesta opinião

1 ponto
Upvote Downvote

Publicado por Luís M. Matias

Licenciado em Serviço Social, pós - graduado em Direitos Humanos, com 1’ ano Doutoramento em Serviço Social (SS), possui formação em Gestão de Organizações Sociais e Gestão de Lares.
É formador, juiz social, e foi Diretor Técnico de IPSS.
Empreendedor, irreverente, e ativista dos Direitos Humanos e do sindicalismo.Em 2012 organizou encontros do Movimento Pró-Ordem, em Maiorca e Coimbra, onde foi debatido o movimento sindical.

Presidente do Sindicato Nacional dos Assistentes Sociais (SNAS) e seu co-fundador em 2013.
É Secretário Nacional da União Geral de Trabalhadores (UGT).

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Loading…

0

COMENTE ESTA OPINIÃO!

O Brasil votou mas não encontra o seu centro

Eleições quentes – Esquerda radical em Delírio no Brasil e na Europa