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Universos femininos na cultura ocidental

Universos femininos na cultura ocidental

«Quanto mais impedimentos legais e materiais as mulheres superaram, mais rigorosa, forte cruelmente têm vindo a pesar sobre nós as imagens da beleza feminina […] Durante a última década, as mulheres irromperam na estrutura do poder; ao mesmo tempo, os distúrbios alimentares aumentaram de forma exponencial e a cirurgia plástica tornou-se a especialidade que mais rapidamente cresce.» (Naomi Wolf, in “O Mito da Beleza”, 1991)  

Todas as mulheres são valiosas enquanto pilares universais, a julgar pelos inúmeros papéis que lhes são atribuídos na cultura ocidental, no seio da família e na sociedade, os quais são valorizados em menor ou maior grau, tendo em conta inúmeras variáveis que não interessa agora referir, infere também, no entanto, um princípio cultural comum: o de que a beleza feminina é fundamental para o bem-estar, felicidade, sucesso e tudo o mais a que as mulheres aspiram e/ou exigem como seus direitos.

Mas… de que falamos quando falamos de beleza feminina? E porque são as mulheres mais ou menos valorizadas tendo em conta a sua aparência? E que perigos acarreta a submissão aos padrões de beleza a todo o custo? Todas as mulheres querem ser “bonitas”, mas e se essa beleza for usada como exigência e como principal juízo de valor, ou seja, contra as mulheres?

Em 1991, Naomi Wolf aborda esta questão no ensaio “O Mito da Beleza”, o qual, na minha opinião, deveria ser lido por todas as mulheres, apesar de conter algumas contradições e até omissões históricas importantes. Porquê? Porque é um bom ponto de partida para as mulheres reflectirem sobre as suas próprias vidas.

Não é raro que entre mulheres as conversas incidam sobre o seu aspecto: “estou gorda”, “não consigo fazer nada do meu cabelo”, “o meu peito é demasiado pequeno”, “no próximo verão não posso vestir bikini, tenho uma barriga enorme”, “a minha pele está cheia de rugas”, “estou carregada de celulite”, “só tenho trapos velhos para vestir”, e por aí fora… Muitas mulheres acreditam que teriam uma vida melhor e seriam mais felizes se perdessem algum peso, se pintassem o cabelo de outra cor, se se submetessem a uma mamoplastia para aumentar o tamanho dos seios, a uma abdominoplastia para diminuir o tamanho da barriga, se fizessem um lifting facial, um tratamento para combater a celulite, ou se ganhassem quinhentos euros numa raspadinha para gastar em roupa, sapatos e adereços, e assim por diante. Uma mão cheia de disparates.

Apesar de ser louvável a boa aparência dentro dos limites normais e adequados, dentro e fora de casa, é necessário que as mulheres ultrapassem o conceito idealizado de beleza feminina e não esqueçam que o mito da beleza tem uma forte conotação política, contribuindo para manter o sistema patriarcal, implicando a submissão das mulheres a um padrão de beleza impossível de atingir pela maioria delas, além de conduzir a sentimentos de culpa, de vergonha e de infelicidade ao longo desse processo obsessivo de tentativas por vezes invasivas ou violetas de se tornarem mais “bonitas”, assumindo ainda o risco consciente de colocar a sua saúde em perigo.

Na verdade, as mulheres libertaram-se do jugo opressor de outros séculos, pois hoje têm mais direitos e mais oportunidades. Mas o mito da beleza parece ter sido assumido por toda a sociedade, incluindo as próprias mulheres, como uma vigilância social sobre o universo feminino. A cultura ocidental “avalia” as mulheres, as mulheres avaliam-se a si mesmas e avaliam as outras, segundo padrões de uma “mulher ideal” que talvez nunca venha a existir. Naomi Wolf chama a este fenómeno «pornografia da beleza», uma espécie de engenharia social que visa manter as mulheres entretidas em eterna competição entre si. É mesmo isto que queremos? Ou haverá outras lutas mais sublimes?

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Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016), “Lugar-Corpo”(2017), "O Tempo O Tempo" (2019) e "Uma Agulha no Coração" (2020); tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-editora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo”.

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