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Uma Filosofia da Infância e para a Infância

Uma Filosofia da Infância e para a Infância

“A criança é constantemente atormentada pelos adultos com a pergunta: – Que é que vais ser quando fores grande? Bem corajosa seria aquela que olhasse o adulto de frente e lhe respondesse: – Não vou ser nada, já sou.” (In A Criança Apressada, D.Elkind, 1990)

Perguntas, imaginação, especulação. A criança parece ser um filósofo natural até à idade dos 8 ou 9 anos. No entanto, esta característica tem tendência a desaparecer. Em 1994 o filósofo Gareth Mathews (1929-2011) publica The Philosophy of Childhood, obra disponível em Portugal no ano de 1997. A Filosofia da Infância é uma obra incontornável neste ainda especulativo universo infantil, indo buscar uma filosofia que representa a amplitude e a profundidade das mentes inquiridoras das crianças, explorando também a forma como os adultos pensam sobre elas. É pois, um relato da pesquisa relativa ao potencial filosófico da mente das crianças e à infância como área de investigação filosófica.

Mathews formula a “teoria da infância da pessoa pequena” que se baseia no facto de o tamanho da criança ser menor do que o do adulto, dizendo-nos que “a grande parte do mundo construído à volta das crianças não é apropriada ao seu tamanho. Não podem chegar ao interruptor e à maçaneta. A mensagem que se transmite é inconfundível: ainda não és inteiramente um membro da sociedade.” Esta teoria parece simplista, mas considerando também o desenvolvimento cognitivo, emocional e social, complexifica-se e torna-se mais interessante.

Apesar dos modelos teóricos existentes – experiencialistas, inatistas, capitulacionistas, etc. – ninguém se encontra em posição de interpretar uma teoria da infância totalmente adequada. De facto, os modelos dão um contributo válido para a interpretação dos dados, mas será conveniente ultrapassar a teoria, uma vez que as crianças não são apenas objectos de estudo. Acima de tudo, devemos respeitar as crianças e as marcas que insistentemente espalham no mundo, bem como facilitar-lhes a expressão e a criação – a Criança, pessoa única e diferenciada.

Chegados a este ponto, estamos perante outro problema – os direitos das crianças. De acordo com a organização da nossa sociedade, são os adultos que tomam todas as decisões relativas à vida dos mais jovens. Mathews elabora uma questão interessante: “será que uma criança é suficientemente racional ou racional de modo certo para que seja capaz de ser autodeterminante?” Pouco se sabe sobre este assunto, mas também é verdade que desde Rousseau, no século XVIII, os direitos das crianças têm vindo a ganhar importância no valor, na amplitude e na abrangência. Pouco a pouco tem sido dada uma maior autonomia à criança, dentro dos sistemas legais, sendo provável que elas venham a exercer essa autonomia com uma idade cada vez menor. Que repercussões terão essas mudanças na estrutura da sociedade onde coexistem adultos e crianças? Em 1974, John Holt escrevia: “proponho que os direitos, privilégios, deveres e responsabilidades dos cidadãos adultos sejam disponibilizados para qualquer jovem, independentemente da idade, que queira fazer uso deles.” Controverso, não? Para já, o que interessa realçar é que o direito de decisão que as crianças detêm sobre si próprias é directamente proporcional ao que os adultos julgam que as crianças são capazes de decidir, de actuar e de ajuizar sobre os seus próprios actos. Na verdade, as ideias das crianças são diferentes das ideias dos adultos, mas não têm um valor ético-filosófico inferior. As crianças precisam de ser aceites e respeitadas por aquilo que são e por aquilo que podem vir a ser, sem atitudes condescendentes ou sentimentalistas por parte dos adultos.

Deixo-vos uma proposta do grande homem e pedagogo Arquimedes da Silva Santos (n.1921) formulada em 1989, para reflexão: “seria pedir muito se se desviasse dos orçamentos dos eufemísticos chamados ministérios da defesa, para defesa da infância, um décimo somente dos gastos que fazem, fomentando em todos os países o Ministério da Criança?”

Que eu tenha conhecimento, ainda ninguém lhe respondeu.

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Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

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