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Sou Professora. Perdoem-me, se forem capazes.

Créditos da imagem: esquerda.net

Sinceramente, é cansativo falar uma e outra vez sobre os problemas dos professores, pois sempre existiram. O que vou lendo por aqui e por ali, bem como as notícias nos jornais e na televisão, e até os comunicados dos sindicatos, cansa-me. Mas na verdade, as políticas relativas aos docentes têm sido desastrosas. Pensando bem, ao longo destes 32 anos de carreira como educadora de infância, professora de teatro e gestora escolar, tenho visto muita alarvidade e fraco reconhecimento pelo meu esforço. Estou preocupada? Sim, e passo a explicar:

– Não sei como vou conseguir exercer de forma digna as minhas funções de educadora de infância até aos 66 anos e qualquer coisa;

– Não compreendo porque é que quando estou doente e o médico me manda para casa de atestado médico, perco o vencimento relativo aos 3 primeiros dias ou então perco dias de férias;

– Não consigo entender os novos cursos para os docentes (muuuiiiito diferentes do que me foi facultado);

– Fico decepcionada com os ataques de pessoas que, não sendo professores, afirmam alto e bom som que (os professores) ganham muito, trabalham pouco e têm muitas férias;

– Custa-me aceitar a (in)justiça das progressões automáticas em detrimento de uma avaliação eficaz das funções docentes, para premiar e beneficiar os professores que mais se distinguem mediante critérios muito precisos, definidos por todas as partes: docentes, sindicatos, pais, tutela;

Pensando bem nestes 32 anos de carreira docente e apesar de ter investido bastante na minha formação pessoal e profissional, não obtive grandes benefícios de carreira ou reconhecimento por parte da comunidade/sociedade, a não ser a benesse de ter um emprego remunerado sem salários em atraso e não ter sido ainda despedida, como a maior parte dos trabalhadores deste país.

Na verdade, pensando bem em todo o meu percurso e expectativas em relação à melhoria do meu nível de vida, tenho a certeza que já não pertenço à classe média, sou apenas um produto perfeito de aniquilação social, quando os sucessivos governos me ostentam e exibem como bandeira/problema do estado económico do país. Sou um dos “indesejáveis” trabalhadores que contribui para engrossar as fileiras da função pública mas todos os dias vou para o jardim-de-infância onde as crianças me recebem com alegria. E isto, apenas isto, é o que me move para trabalhar arduamente todos os dias, até que o Estado queira (não é o ordenado, não são as regalias ou as férias).

Perdoem-me, se forem capazes, porque a minha carreira não foi nem é tempo perdido, principalmente para as centenas de crianças que tive e tenho à minha responsabilidade.

Educadora Adília César

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Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

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