in

– Socorro, o meu Professor é velho!

Créditos da Imagem: Pinterest

A idade de acesso à pensão de velhice, ou reforma, continua a aumentar, sendo que, no presente ano de 2018, o cidadão português poderá reformar-se aos 66 anos e quatro meses, havendo penalizações para quem se quiser retirar mais cedo.

No caso da profissão docente, estamos pela primeira vez a assistir a um fenómeno ainda pouco estudado no nosso país: a existência de professores velhos (ou idosos) no sistema de educação e ensino, ou seja, desde a educação pré-escolar até ao ensino secundário.

A discrepância entre os níveis médios etários dos adultos e das crianças/jovens nos jardins-de-infância e nas escolas é um facto, e podemos todos fazer um esforço para compreender as causas divulgadas pelos sucessivos Governos para o alargamento da idade da reforma. Sim, aumento da esperança de vida, maiores encargos para a Segurança Social e Caixa Geral de Aposentações, blá, blá, blá… Já em relação às correspondentes consequências deste fenómeno para o processo educativo dos alunos, não é preciso fazer esforço nenhum!

«- Socorro, o meu professor é velho!» – poderá ser um pesadelo de muitos alunos no futuro, pesadelo esse em que os próprios professores também serão protagonistas solidários no mesmo cenário, com toda a certeza.

Na verdade, todo o cidadão quer viver muitos anos. O aumento da esperança de vida, motivado em grande parte pelo maior e melhor acesso aos serviços de saúde é uma boa notícia. Assim, queremos viver uma vida longa digna, com saúde e conforto, usufruindo das regalias da reforma depois de termos trabalhado e descontado a vida inteira (sim, actualmente, é mesmo “a vida interira”). Mas o que vai acontecer, é o que já se nota e se adivinha sem grande margem de erro: os professores vão envelhecendo, adoecem (tendo em conta que a profissão docente é altamente desgastante) e tentam aguentar o máximo de tempo que lhes for possível, para não terem uma grande penalização nos valores da reforma. Mas que consequências pode tudo isto ter na qualidade dos processos educativos com as crianças e os jovens, no atendimento aos alunos nos jardins-de-infância e nas escolas? É fácil perceber, citando apenas algumas:

– fraca disponibilidade para a resolução de conflitos relacionais e insucessos escolares;

– dificuldade em continuar a realizar acções de formação docente que pouco mais são do que “mais do mesmo”;

– desfazamento entre o que o professor pretende e o que o aluno de facto quer ou necessita.

É certo que, hoje em dia, um professor de 60 ou mais anos tem dificuldade em comparecer todos os dias no jardim-de-infância ou na escola com a disponibilidade de outrora. A sua visão do mundo pode ter ficado um pouco “lá atrás” e a revolução tecnológica da pós-modernidade instaurou novas visões da própria realidade, criando um grande fosso entre novos e velhos, com todos os constrangimentos pedagógicos que este ambiente acarreta. É claro, existirão excepções, as quais, com a devida vénia, serão alvo de homenagens no 10 de Junho, talvez até com a atribuição de uma medalha de Professor do Ano, perdoem-me a ironia…

Mas confesso, agora aqui que ninguém nos ouve: em vez de uma medalha, eu antes queria a reforma antecipada!

Adília César

Também gostaria de publicar o seu artigo de opinião no nosso site? Clique aqui.

Vote nesta opinião

1 ponto
Upvote Downvote

Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Loading…

0

COMENTE ESTA OPINIÃO!

Festival da Canção da Eurovisão - Um modelo para os Países Lusófonos

Festival da Canção da Eurovisão – Um modelo para os Países Lusófonos

No opinar é que está o ganho