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Ser feliz é possível

Ria Formosa em Faro, por Marisa Lino

“A melancolia, a reflexão sobre a infelicidade consumada, nada tem a ver com o vulgar desejo de morte. É uma forma de resistência. E, sobretudo ao nível da arte, a sua função está longe de ser meramente reativa ou reacionária. Quando ela, de olhar fixo, pensa uma vez mais no que nos arrastou até aqui, bem se vê que o impulso que leva ao desespero e o que leva ao conhecimento são agentes idênticos. A descrição da infelicidade traz em si a possibilidade de a superar.”

W. G. Sebald

Ser feliz. Se eu ganhasse uma moeda por cada uma das vezes que ouço este desejo, já teria o financiamento necessário para montar um negócio de Lâmpadas de Aladino. Decerto que seria um sucesso e os artigos esgotariam depressa, pois existe uma característica intrínseca ao ser humano: nunca está satisfeito com o que é ou com o que possui. E não raras vezes responde “estou mais ou menos” ao amigo que encontra acidentalmente e o cumprimenta: “então como estás”? Mas eu respondo sempre da mesma maneira: “estou bem”.

Na verdade, é fácil ser feliz. Começamos com pequenos momentos de satisfação pessoal (cada um terá os seus) e replicamos essas vivências as vezes necessárias para a manutenção do nosso bem-estar físico e emocional: comer alimentos saborosos de qualidade, beber um bom vinho, movimentar o corpo, adquirir conhecimento, ficar aberto a novas ideias e concepções do mundo, ter projectos e concretizá-los, conviver com amigos que mereçam a nossa companhia e amar. Esta é a receita-base da felicidade, apontada por muitos. Mas atenção, ninguém aguenta um sorriso de orelha a orelha o tempo todo, ninguém consegue ser feliz a toda a hora, e os momentos de melancolia vividos de forma pessoal e recatada fazem todo o sentido. Estou a falar do direito à “infelicidade”, ao silêncio vazio da melancolia, ao recolhimento interior de um passeio em espaço aberto. E contemplar a imagem, o sabor, o som, a emoção: na paisagem, no rosto do ente querido, num poema, num quadro, numa sinfonia (não servindo para o efeito pretendido a correria pelos confusos centros comerciais em busca da cura para a solidão).

O silêncio e o caminhar são sugeridos pelo sociólogo francês David Le Breton como filosofia de vida; o silêncio é identificado pelo editor, escritor e explorador Erling Kagge como sendo o verdadeiro luxo da contemporaneidade, um tesouro a descobrir. Concordo plenamente e ainda acrescentaria a contemplação. Nesta medida de felicidade temos um triângulo mágico onde pode existir uma espécie de reconhecimento interior, um diálogo íntimo, um ensimesmamento, que constitui uma geografia do ser – “a pessoa”. O que cada um de nós poderá fazer com estas preciosidades é ao mesmo tempo um planeamento e uma concretização, tendo em vista a exploração de inúmeras possibilidades de superação dos nossos problemas particulares recorrentes, às quais chamo “pequenas-grandes tragédias diárias”, de acordo com a importância que lhes atribuímos nas nossas vidas. Ultrapassar o cenário da insatisfação já é um momento luminoso de felicidade, um pirilampo emocional.

O silêncio, o caminhar e a contemplação descontaminam esta época histórica caótica, ruidosa, distraída e superficial. Mas são também actos revolucionários que podem ser conotados com a loucura, por se constituírem como um plano bélico contra a banalidade, uma resistência necessária à cultura de massas, que parece assumir-se como tendência maior da actualidade.

Ganhei coragem e comprei uma Lâmpada de Aladino. O direito ao silêncio, ao caminhar e à contemplação são os meus três desejos para ser feliz. O resto, já tenho dentro de mim.

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Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

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