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Rescaldo eleitoral: um beco sem saída (II.)

“A democracia tem de ser algo mais do que dois lobos e uma ovelha a votarem o que vão ter para o jantar” (James Bovard).

Os Partidos…

Por o sistema estar assim, doente, inevitavelmente se torna doentio. Insalubre. E entre outros espelhos, há alguns que não enganam (ao invés de determinados políticos): a realidade do nosso SNS; da nossa Justiça; das nossas Finanças. Ou não fosse o prejuízo corrente do SNS na centena de milhões de euros. Encoberto e só agora vindo a público, após eleições… Ou os processos judiciais que se acumulam, significam que está tudo bem? Sem ponta por onde se lhes pegue só porque não convém, tal como os casos recentes e pendentes. Porventura, sem fim/pena à vista: Operação Marquês, Pedrógão Grande e Tancos. Já para não abordar o ‘Panama Papers’, em que passaram três anos e não foram ainda revelados os nomes dos políticos envolvidos… Aguarda-se… Entre outros de justiça tardia. Apologista do ‘adeus’ e do adia. O que dizer da carga fiscal assustadoramente crescente ano após ano? E tudo até o povo se esquecer, já que se esquece rápido com a aparição de um qualquer caso seguinte. Embora ‘velhos’ (os casos, não os trapos), disfarçados de ‘novos’, fugindo sempre como um andrio. E cheirando ao mofo do compadrio, do poderio e até do casario.

O PS teve uma votação maior que os outros partidos, mas não a maior – mais uma vez a ausência de votação – por isso não venceu as eleições. Tal como aconteceu em 2015 com a coligação PSD/PP. Apenas ganhou mais nas urnas e no conjunto de deputados. Mas todos ganharam algo nestas eleições, mesmo julgando-as perdidas. Dizer isto é uma forma de democratização positiva no espectro geral. Apesar de alguns inconvenientes que esta pluralidade – possivelmente boa – pode trazer com alas mais conotadas ao extremismo (seja de direita seja de esquerda). Derivada duma fragmentação na política, que “favorece os radicalismos”, como exprime José María Aznar (em entrevista, última, ao jornal Sol). A referida pluralidade traduz-se tanto nos 16 partidos que foram a votos, com algumas estreias nestas legislativas, como no recorde de partidos agora obtido com assento parlamentar.

Quando foram divulgadas as projeções televisivas dos resultados (às 20h) fez-me um pouco espécie ao ouvir Ana Catarina Martins dizer: “uma grande vitória do PS”. Soou-me mal por causa do “grande”, que não pode ser relativo: tem de ser claro e à vista de todos. Ou é ou não é. Grande em quê, se não houve maioria absoluta – nem qualquer canal a projetava – e se a diferença no intervalo estimativo entre PS (mínimo de 34%) e PSD (máximo de 31%) era residual? Depois, acabou por não ter tão “poucochinha” no resultado final (nos 9%). Tal como a D. Chica que se admirou com o berro que o gato deu, António Costa admirou-se com o facto de julgar que os portugueses gostaram da ‘geringonça’ (termo que se rotulou de ‘novo’ em 2015, mas que já acontecera na política nacional em 1976, segundo um livro desse ano). Juízo feito a ver pelo resultado eleitoral. Se não gostaram era como se tivessem gostado. Pelo menos, os que votaram nos partidos da geringonça, em que o PS se destacou. E como esteve tudo “às mil maravilhas” nestes últimos quatro anos, “toma lá morangos”: nada melhor do que repetir! Do que ter quase “mais do mesmo”. Com ministros quase todos iguais para a nova legislatura, fazendo carreira ministerial nos últimos governos socialistas.

O PS de Costa faz por mostrar que continuará em força, mesmo sem maioria e sem acordos escritos com o que se especulava numa nova ‘geringonça’. Ao que a Iniciativa Liberal já chamava de ‘aranhonça’. Mas parece que não haverá aranhas, a teia será outra. Com outras malhas. E esperemos que sem ‘milho’ para quem pensa diferente, para quem o diz na cara do senhor primeiro-ministro.

A direita e centro-direita saíram feridas deste combate eleitoral. Diminuídas. Perdendo eleitores e deputados. Mas ambas ganharam à sua maneira. O PSD ganhou um presidente mais forte, combatente, que resistiu à desgraça que alguns (para não referir muitos), interna e externamente, vaticinaram contra ele. E Rio percebeu que há uma diferença entre desistir e perceber que aquele não era o melhor dia… Logo, reagir de cabeça quente não era a solução. Não concordo com vozes dissonantes vindas do interior. Sejam neste ou noutro partido, movimento ou organização. Se alguém não está bem – no seio da sua ideologia, na unidade da sua identidade – que se mude. Não é fazer-se de amigo da onça ou denegrindo os demais que mostra ser fiel, responsável ou promissor. Pelo contrário! Agora se Rio acabar por sair, será que o PSD ficará melhor / muito melhor com um Montenegro ou um Pinto Luz à frente? A meu ver, não! Não tenhamos ilusões. A haver alterações, e para fazer emergir o PSD, terá de ser um nome bem forte. Um pilar que transmita confiança, estabilidade e segurança. Que una as divisões internas, extinguindo-as!

Já o PP ganhou em não ter morrido de vez, como os Verdes (substituídos no Parlamento por mais PAN, como partido supostamente ecológico), restando uma mão cheia de sobreviventes. E ganhou no entendimento de mudança na liderança. Tal como numa crise, está a bater no fundo. Mas o ricochete que ela provoca, a ser provocado pelo futuro novo timoneiro, fará este partido – de figuras como Lucas Pires, Freitas do Amaral e Adriano Moreira – voltar à mó de cima. Acredito que poderá viver dias melhores, mais adiante. Reestruturando-se, bem como as suas estratégias, linhas de ação e de comunicação.

Atenção que, como escreveu o historiador Rui Ramos no ‘Observador’, “a crise da direita não é só crise da direita”. No fundo, toca a todos. Não sacudamos a água do capote, ignorando o que está acontecer, como se isso fosse benéfico para o país no geral!…

Assemelho isto a uma imagem que me veio agora à cabeça: é como nas vias rodoviárias com mais do que uma faixa no mesmo sentido! A tendência global é entupir a faixa da esquerda, que devia ser a mais rápida e estar desobstruída. Ao contrário da faixa da direita, obrigatória a circular-se – por lei. Mesmo assim, os condutores continuam a fugir dela, como que um “defeito de fabrico”. Como se algum mal ela fizesse. É que até quando há trânsito ou chuva, acaba por ser aquela – muitas vezes – mais desimpedida!… Não esqueçamos que nas auto-estradas, IC e outras afins é pela direita que se tem saída. Para se chegar onde se quer. Assim vai a Política nacional: está a encostar-se muito à esquerda, como se a direita não fosse necessária para viabilizar. Os partidos, sobretudo os com maior expressão popular, precisam-se mutuamente no equilíbrio da balança. Mesmo quando – entre si – fazem fitas, birras e outras diatribes que tais. Não queremos cá desequilíbrios nem teatralismos desequilibrados. Mesmo com novos partidos, são eles que – a longo prazo – continuarão a dominar e a predominar, tanto para bem como para mal…

Não posso deixar de apontar, antes de terminar, que sublinho com satisfação o aumento de mulheres eleitas para a Assembleia da República. Ora como deputadas, ora como ministras. Nisto, não hajam dúvidas, temos todos – todos mesmo – a ganhar.

A ironia do destino, quiçá…

A pista está pronta, a ‘nova’ corrida vai começar (oxalá venha a ser realmente nova): a de governação isolada, com consensos verbais à esquerda, e com um leque de ministros praticamente igual. À exceção de dois ou três, que vão para as boxes. Quanto à governação isolada, que não se inspirem no fracasso do PSOE de Sanchez, na vizinha Espanha. Em quatro anos, quatro eleições sem sair da cepa torta…

E agora? Vamos assistir ao que virá, ao que será. Seja na praça pública, ou sentados no sofá. A ver, talvez, mais uma novela política do diz que disse; do promete e não cumpre; do «job for the boys» – os familiares e amigalhaços; de números sempre diferentes nas taxas/impostos, PIB e outros mais, entre entidades distintas; etc.. Números perdidos, atirados para o ar, que nem os «ratings» podem apreciar. A ser novela, que ao menos tenhamos um romance. Sem dramas. E sem terror: não gosto, simplesmente. Nem no cinema, muito menos na vida.

Que este caminho até 2023, e mais além, seja de luz verde para o que prioritariamente importa para o país e uma melhor vida para todos os cidadãos. Apaguem-se as luzes ofuscantes do interesse pessoal e partidário. Acendam-se e brilhem, de uma vez por todas, as luzes do interesse nacional! Seja esta uma senda num sentido coletivo, sem inversões de marcha nem manobras perigosas. Seja uma estrada sem buracos financeiros e sem mais becos de leis que não conduzem a qualquer saída!…

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Publicado por André Rubim Rangel

Nascido em 1977, é "tripeiro" de gema: cidade e clube. É licenciado em Teologia (UCP), com um curso profissional de “Comunicação, Marketing e Assessoria de Imprensa” (AEP), mestre em Ciências da Comunicação – ramo Jornalismo (UFP).

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