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Recordar o “[email protected]é com [email protected]” em Cacilhas.

Recordar o "C@fé com Letr@s" em Cacilhas.

Hoje vou substituir a Política, tema preferencial dos meus artigos, pela Cultura, outras das minhas áreas de eleição, para recordar o projeto que, confesso, foi aquele que mais prazer me deu conceber (em 2003) e executar: o “[email protected]é com [email protected]” (durou cerca de quatro anos no mesmo local – na Rua Cândido dos Reis, em Cacilhas, e depois deambulou outros tantos por outros espaços da cidade de Almada, entre pastelarias, esplanadas de rua, coletividades, escolas, bibliotecas e diversas instalações do municipais). No final deste artigo deixo-vos algumas ligações para várias das nossas atividades, incluindo vídeos de algumas das mais emblemáticas sessões mensais de “Poesia Vadia” (um marco que perdura ainda hoje, em 2018, apesar do programa já ter terminado).

Mas para dar a conhecer o projeto, nada melhor do que fazer a transcrição e alguns excertos da introdução do livro INDEX POESIS (uma das componentes daquele projeto que maior êxito obteve), publicado em 2006, aquando da realização do 1.º Encontro de Poetas Almadenses, uma iniciativa do grupo de amigos reunidos em torno desta ideia (com apoio de duas associações locais: O FAROL – Associação de Cidadania de Cacilhas e a SCALA – Sociedade Cultural de Artes e Letras de Almada):

«Tenho da Cultura uma ideia talvez demasiado utópica: espaço social onde o grau de formalismo se esbate nas práticas quotidianas solidárias; campo fértil de memórias e afetos onde todas as expressões artísticas têm a mesma dignidade. Por isso, para mim, a oferta e a fruição das atividades culturais são, sobretudo, formas de participação cívica.

Nesta ótica, encaro a Cultura como um instrumento legítimo de Poder que, quando efetivamente partilhado entre os diferentes agentes (instituições, autores e público), de forma integrada, permite transformar a realidade através da compreensão dos valores da sociedade (passados, presentes e futuros).

Recuso-me a considerar a Cultura como um mero produto comercial, onde o lucro é mais importante do que o conteúdo, e não aceito que se avalie a produção de quaisquer atividades culturais em função da sua capacidade de gerar dinheiro, apesar de reconhecer que é necessário um apoio financeiro para produzir determinado tipo de materiais de suporte.

Para mim, todavia, o fundamental é, e será sempre, o papel desinteressado de quantos estão nesta área “de alma e coração”, porque a sua intervenção não depende de pressões económicas ou políticas… movem-se por “amor à camisola”, dispensam protagonismos elitistas e a sua recompensa é a adesão voluntária das pessoas à causa que defendem e o reconhecimento pelo trabalho realizado. A satisfação íntima, e uma palavra de agradecimento, são as únicas retribuições que consideram adequadas pelo cumprimento dos projetos em que acreditam. Sei, contudo, que esta é uma forma altruísta de encarar a Cultura que nem todos compreendem. (…)

«Lutar contra a iliteracia, fomentar o prazer da leitura e, principalmente, incentivar o gosto pela palavra escrita, eram propostas demasiado ousadas… Mas, eu sempre gostei de um bom desafio e ultrapassar a banalização da cultura instalada era uma pretensão que me fazia querer ir em frente. O meu horizonte tinha apenas um limite: a disponibilidade de cada um dos colaboradores que se foram juntando ao projeto, na medida em que nenhuma das tarefas era remunerada. (…)

A programação cultural era ambiciosa. Incluía a realização de tertúlias (sobre temas da atualidade, da política à história local), de sketches de teatro, a inauguração de exposições temporárias (de fotografia, pintura e desenho), sessões de leitura em grupo (de poesia ou prosa – a «POESIA VADIA» tornou-se um acontecimento marcante na vida cultural de Cacilhas), apresentação de livros e revistas, workshops várias, feiras e mercados do livro, etc. [A título de exemplo, deixo-vos o Relatório de Atividades de 2003]

Foi neste contexto que idealizei um outro projeto mais específico, destinado a divulgar a poesia inédita dos clientes e amigos do [email protected]é com [email protected]… E, então, apareceu a coleção Index Poesis, com o objetivo de quebrar a rigidez das regras do mercado editorial a que só acediam os que tinham os conhecimentos certos ou dinheiro para investir.

Assim, para que a poesia nunca mais ficasse aprisionada nas gavetas da memória, ou esquecida em folhas de papel que ninguém lia, foram criados os cadernos «Uma Dúzia de Páginas de Poesia» (brochuras simples, de 12 páginas apenas) [que ultrapassou a centena de números publicados] e, ainda, os «Marcadores de Leitura» e a série «Letras com o café», um poema para adoçar a bica, e que era oferecido todas as sextas-feiras e sábados a quem pedia uma chávena do dito.

Durante cerca de dois anos, esta iniciativa transformou-se no “porto de abrigo” para os poemas que uma série de clientes do [email protected]é com [email protected] se dispunham a partilhar entre si. E, curiosamente, acabou por ser, também, um convite à imaginação de quem escrevia incentivando muitos autores a produzirem mais e outros tantos a descobrir talentos que desconheciam ter.

Publicados ao ritmo da oferta (isto é, em função da quantidade de trabalhos que nos eram endereçados), estes cadernos, apesar de serem uma edição artesanal, rapidamente se tornaram numa das atrações mobilizadoras das sessões de «Poesia Vadia» (que se realizavam no último sábado de cada mês) onde eram apresentados.

Com uma tiragem adaptada ao nível da procura e de custos reduzidos (em virtude de o método de produção ser caseiro, ou seja, todas as tarefas do circuito eram executadas pela coordenadora, desde os contactos com os autores, à digitalização dos textos, grafismo, paginação, impressão, reprodução, dobragem e acabamento final) era possível, num curto espaço de tempo, um autor editar um “livro” de poesia, com a vantagem de o poder divulgar entre os habituais frequentadores do [email protected]é com [email protected].

Como sempre fiz questão de frisar, a coleção Index Poesis era, apenas, uma forma diferente de comunicar, sem pretensões de excelência literária, onde cada poema tinha o peso das emoções e a qualidade que cada autor exigisse a si próprio. Por isso, todos os poemas eram aceites e tratados de forma igual… fossem de poetas consagrados, e com vasta obra publicada, ou de completos desconhecidos. Talvez por isso, num ápice, aos primeiros doze autores se juntaram mais algumas dezenas, alguns vindos de outros concelhos do país [e até de outros continentes como o livro editado em 2016 o comprova] atraídos pela novidade do que se passava no [email protected]é com [email protected] de que iam sabendo através do respetivo blogue, entretanto desativado.»

19-12-2008: Apresentação dos Jovens Poetas Vadios

19-04-2009: Almad’Abril

17-10-2009: A poesia é p’ra comer!

19-03-2010: Nada Faz Sentido (1.º livro do Didier)

março de 2011: Poetas na escola secundária do Monte de Caparica

15-01-2013: Francisco Naia e a Ronda Campaniça

20-02-2015: Apresentação do livro “Diário Poético de Um Empregado de Balcão

23-04-2015: Poetas na escola básica Miradouro de Alfazina (Monte de Caparica)

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Publicado por Ermelinda Toscano

Nasci na Trafaria em 1959 e resido em Cacilhas desde 2000. Licenciada em Geografia e Planeamento Regional, com pós-graduação em Gestão Autárquica. Trabalhei numa entidade autárquica supramunicipal de 1987 a 2015, tendo exercido o cargo de Diretora dos Serviços de Cultura de 2004 a 2014. Desde 2015 integro a Unidade de Fundos Estruturais da Direção-Geral das Autarquias Locais. Fui autarca na Assembleia de Freguesia de Cacilhas entre 2005 e 2010 e na Assembleia Municipal de Almada de 2009 a 2010. Pertenci aos corpos gerentes da SCALA – Sociedade Cultural de Artes e Letras de Almada durante vários mandatos sucessivos e sou Secretária da Direção da Associação de Cidadania de Cacilhas – O FAROL desde 2008. Concebi o projeto cultural “Café com Letras” em Almada (2003 a 2006) e coordenei a associação informal “Poetas Almadenses” (2006 a 2014).

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