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“Quem tem bastante no seu interior, não precisa de fora”

“Quem tem bastante no seu interior, não precisa de fora”

“Onde há uma estrela há um homem nocturno
Um homem hemisférico que pensa na luz.
Ele sabe que a lâmpada é o cordeiro. Sabe que a cidade
Não precisa do sol nem da lua. O homem acende na cidade
O pensamento.
O cordeiro está em pé como que degolado e o sangue
Corre da ferida viva como um braseiro. A lâmpada
Abre uma constelação no chão: o livro
Que nomeia e nutre os ressuscitados.
O homem põe a estrela na direcção da vida
Um astrolábio celeste. Não precisa do sol nem da lua
Porque tem o cordeiro de pé e em frente.
Ele sabe que o cordeiro é uma pedra que está ferida
E roda-a devagar até ele próprio ser a fonte.
O homem junta as duas mãos como quem bebe
E queima-se nas mãos, na boca, nas entranhas
Com o lume muito novo da bebida.” 
(Daniel Faria, in «Dos Líquidos»)

Aproximamo-nos do memorial pascal, de que – muitos de nós – faremos cerimonial espiritual. Por ser esta uma Páscoa diferente de todas as outras, para todos, quis que também este texto fosse distinto, à imagem do que devemos ser uns nos outros, uns para com os outros. Entre eles e, deles, connosco. Ou seja: esta será uma crónica peculiar a que chamo de “convocada e cooperada”. Não apenas minha! Partindo de mim, mas existindo simultaneamente com o registo especial de 21 figuras públicas, minhas amigas e que muito estimo. Convidei estas, que acederam, como poderiam ser outras.

A Paixão de há dois milénios é a da atualidade. A paixão da Humanidade. Para seguir o exemplo do Divino, da transcendentalidade. Quantos calvários e dolorosos rosários; quantas cruzes carregadas e encruzilhadas deambuladas; quantos temores assustadores em nós e, na Terra, tremores assoladores; quantos túmulos que não se querem abrir para libertar os tumultos que servem para inibir e dividir! Quantos e quantas… Mesmo não parecendo, Deus é, Deus está – seja qual for o Seu nome e religião. Onde? No coração do mundo, num mundo com tantos corações destroçados e que, com a Páscoa, oxalá ficarão mais confortados.

A Paixão da redenção é a de tantos que ora vão vencendo – como Cristo, que também esteve isolado e foi negado –, ora vão padecendo – voltando ao pó que somos, que nos está traçado. É a de tantos que ora se vão sacrificando (no e com trabalho), ora se vão angustiando (em casa e/ou sem trabalho). Importa ir, agora, ao ressurgir. Passar da comPaixão à Ressurreição da salvação. Trespassar. A Páscoa real é esta transição, do antes ao depois, com reta certidão e certa retidão. 

Aplicando-a ao presente: 

:: sem os vitrais da litúrgica exteriorização, mas com os sinais da cirúrgica interiorização – da ritualização dos atos à meditação dos factos (desta Semana Santa). Melhor do que no interior do lar, brote essa interioridade – e seja forte! – no interior do nosso calmar e amar, o coração: (re)abrindo-o, fechados ou não, à espiritualidade e oração. Como reza o cardeal poeta: “Livrai-nos do vírus do isolamento interior que desagrega, pois o mundo continua a ser uma comunidade viva” (D. Tolentino Mendonça). Ou ainda, como dizia Goethe, «quem tem bastante no seu interior, não precisa de fora».

:: sem mais escuridões, que tornem os nossos fados em enfados, as nossas larguras em amarguras e as nossas ações em distrações. Todavia, com a luz que verdadeiramente irradia nos rostos e corações, com renovados gostos e afeições. Eis o círio pascal que vem, que está e que sempre virá. Que nos ajude a ver a vida “de maneira positiva, com as lentes da própria luz” (P. Bosmans). Sobre o círio, Paulo VI discursou, um dia: “pela sua doçura, ele é a imagem da inocência e da pureza. (…) Tem como destino consumir-se no silêncio, tal como a nossa vida se consome no drama”. 

:: sem outros demónios nem desvairos interiores, contudo sendo – “da alegria original do Paraíso” – anjos portadores e abençoadores. Sejamos anjos, de qualquer idade, esses seres que «deixam passar a luz» e pelos quais “existe o brilho e a claridade” (P. Bosmans). Anjos acariciadores e protetores. Que nos ajudam a circular da desolação depressora – “a alma fica preguiçosa, tíbia, como se estivesse separada do seu Criador” (M. Lorrain) – à consolação vitalizadora.

:: sem os beijos e abraços que, quando estávamos e podíamos já tínhamos deixado de prestar, porém, de momento, na vontade firme de os querer dar. E de, valorizando-os mais e no reencontro futuro, eles tornarem a voltar. Ressuscitados! Voltem para ficar! 

Que esta Páscoa seja “viver um momento de libertação ideal e real de tudo o que constitui fadiga do dia-a-dia. (…) O momento da Páscoa é vivido como uma pausa dentro da história” (Carlo Martini). A ressurreição não é algo que se alcance para lá da morte: “é simplesmente entrar em ‘mais’ vida. (…) É, como diz Bessiere, “um fogo que corre pelo sangue da nossa humanidade. Um fogo que nada ou ninguém pode apagar” (M. Descalzo).

TESTEMUNHOS EXCLUSIVOS

A todos estes caríssimos convidados foi-lhes colocada uma questão comum: “Como vai ser vivida e adaptada a sua Páscoa? Isolados que estamos, sem poder juntar as famílias nem participar nos atos religiosos próprios da festividade, celebrará na mesma? Ou adiará, porventura, esta celebração conjunta para quando for possível?”. Agradeço imenso a cada um/a pelo prestimoso contributo dado! Eis as respostas, apresentadas por ordem alfabética:

Alice Vieira

:: “A Páscoa interior ninguém ma tira… Tempo de refletir e de esperar um recomeço, sempre. No site da igreja do Rato sigo a missa. E quando tudo tiver passado, haverá a grande celebração familiar.”

Ana Brito e Cunha

:: “Este ano, na realidade, a Páscoa tem muito mais sentido pois, como católica que sou, esta assustadora pandemia calha precisamente na quaresma. Faz que tudo tenha um sentido muito mais profundo. Faz-me viver esta quaresma com o coração atento a cada detalhe, valorizo a minha vida – aceitando-a como me foi dada – e a minha família, ainda com mais amor. Esta é uma época de reflexão e renovação espiritual, é uma oportunidade para criarmos rotinas espirituais em família. Normalmente juntamos toda a família no campo (uma quinta privada): este ano não poderei estar presente fisicamente, mas estarei ligada por videochamada para rezar a via-sacra com os familiares que estão lá. Ao chegar o domingo da ressurreição acredito, profundamente, que teremos uma nova oportunidade e consciência do novo mundo que nos é proposto.”

António Pires de Lima

:: “Será uma Páscoa especial: com a família distribuída por várias casas, almoço via ‘zoom’ a juntar todos digitalmente e um cabrito partilhado e entregue previamente. Páscoa é sempre Páscoa e significa esperança. Será vivida intensamente, embora de forma diferente.”

António Lobo Xavier

:: “Reconheço que a Páscoa, sem a Família reunida, não tem o mesmo sabor. Mas talvez nos dê algum conforto olharmos para o essencial: para os católicos, não se trata agora de celebrar especialmente a Família. Seja com o seu sentido original de “passagem”, seja como celebração da ressurreição de Cristo, a Páscoa é fundamentalmente a festa da esperança, que podemos viver plenamente, ainda que recolhidos. Celebremos, pois, a esperança numa nova vida, celebremos a esperança no fim do sofrimento e do medo.”

Aurora Cunha

:: “Todos nós, de quarentena, vamos viver uma Páscoa mais de fé, de esperança, de  fraternidade e de oração, mesmo que pelos meios digitais. Para mim, tudo isto é um sinal de alguém que nos pôs em sentido: a Família está mais junta ou com maior contacto, mesmo com dificuldades. Deus está a provar-nos que o mundo jamais será igual. Esta é uma lição que nos fará refletir o futuro que queremos, que sociedades iremos construir.”

Camané

:: “A Páscoa vai ser passada com distância, mas próxima. Pois vai ser através de videoconferência e o máximo de partilha, embora sem proximidade. Confesso que, em alguns aspetos, estes dias têm sido extremamente ligados à família.”

D. Carlos Azevedo

:: “A Páscoa, apesar de variável, tem uma data fixa para cada ano. Quem estiver, por ex., no hospital, por ter sido operado, também não a celebra naquele ano. Muitas comunidades cristãs, como no Vietname e no Camboja, viveram quase 100 anos sem padres e mantiveram a fé. Nós estamos habituados ao luxo dos sinais. São algo que temos, que precisamos – como os Sacramentos –, mas o principal da Fé é a espiritualidade. O principal da Páscoa é a vivência espiritual. Depois, se as celebrações ajudarem, nós aproveitamos porque somos humanos. Este ano é assim.”

Catarina Furtado

:: “A Páscoa vai ser celebrada em família, as tecnologias assim o permitem. Os momentos em que somos convocados à espiritualidade servem para pensar nas centenas de pessoas que estão na linha da frente do sacrifício, da dor, da solidão, do desespero (profissionais de saúde; idos; crianças institucionalizadas; vítimas de violência doméstica; empregadas a dias; sem abrigo; cuidadores; desempregados súbitos). A minha família, felizmente, está longe de estar nessa linha. Estamos a cumprir o nosso dever cívico e a tentar multiplicar a solidariedade na medida das nossas possibilidades. A Páscoa tem de ser como o Natal: todos os dias! Mais do que nunca. Nesta pandemia é tão urgente estar atento àqueles que mais sofrem o impacto negativo da crise, como lavarmos as mãos várias vezes ao dia!”

Fernando Santos

:: “A Páscoa vai ser celebrada como sempre. Páscoa é a celebração da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, que por nós se entregou para que a vida vencesse a morte. E nós possamos ter vida e vida em abundância. Não podendo estar presente fisicamente em comunidade, estarei espiritualmente com todos os que, em todo o mundo, celebram a Páscoa. E no recolhimento de casa, rezando por todos os ‘Cristos’ que – carregando a sua Cruz como Ele fez, no caminho para o Calvário – estão na linha da frente, lutando por todos os seus irmãos. Cristo ressuscitou. Aleluia.”

Isabel Alçada

:: “A Páscoa é uma época em que a minha família costuma reunir-se. Este ano não será possível juntarmo-nos ao vivo, mas vamos trocar montes de mensagens e, ao almoço, tencionamos colocar os tablets sobre as mesas para nos vermos, para conversarmos e rirmos em conjunto. Vou cozinhar, claro. E como sempre faço irei à missa. Este ano terei que participar numa celebração à distância, como aliás tenho feito nos últimos domingos.”

Isabel Jonet

:: “Este ano a Páscoa será certamente celebrada de uma forma diferente, sem as celebrações eucarísticas vividas em comunidade e sem o almoço de família com a caça aos ovos, pelos mais pequeninos. Todavia, não deixará de ser celebrada nos nossos corações, de forma mais íntima, com a certeza do amor de Deus que, por cada um de nós, deu a vida e ressuscitou, abrindo a perspetiva da vida eterna, assim dando outro sentido à vida terrena.”

José Figueiras

:: “A Páscoa sem o ‘covid’ seria, certamente, diferente. A começar porque a família estaria reunida à mesa neste domingo. Os filhos chegavam do estrangeiro, porque vivem fora; eu abria a tal garrafa especial; e a avó até arranjava o cabelo, para ficar ainda mais bonita. Com todas estas medidas necessárias de contenção social, a Páscoa este ano fica sem o arroz doce e sem as farófias que tanto gosto, porque não podemos estar fisicamente. Mas fica a certeza de que continuamos juntos a toda a hora, para que todos os dias haja motivos para celebrar a vida.”

Júlio Machado Vaz

:: “Vou passar a Páscoa sozinho em casa, mas espero poder a médio prazo reunir a tribo num almoço de simbólica ressurreição.”

Lídia Franco

:: “Continuo a adorar chocolate (não só na Páscoa). Agora só posso ver o meu neto por Skipe e, por isso, já lhe prometi que quando estivermos outra vez juntos lhe levo não só os chocolates da Páscoa. Mas, também, milhões de beijos e abraços que ando a juntar para ele. É por isso que temos todos que estar agora separados.”

Margarida Pinto Correia

:: “A família física poderá ser muito reduzida, estaremos 4 à mesa. Mas a família que se juntaria no Domingo de Páscoa, para celebrar o Recomeço, estará junta online antes de jantar, para uma celebração simbólica. Um brinde à vida e à Ressurreição, muito para lá da especificidade da Igreja. Essa é a beleza da Páscoa, a sua grandiosidade: ser um tempo de recomeço. Um tempo  de acreditar na espiritualidade e na força da nossa esperança. Da nossa vontade. Da capacidade que todos temos de perdoar e seguir, construindo mais e melhor. Recomeços, portanto. Admiro a capacidade de recomeçar – e nada mais adequado a esta travessia que agora vivemos, numa reclusão física e material que nos desafia no mais profundo da nossa essência. Recomecemos, então.”

Nilton

:: “Por força da quarentena, esta será uma quadra a 4 e, provavelmente, nem diremos às crianças que é Páscoa. Porque ainda me lembro das 723 perguntas do ano passado, sobre como é que o coelho da Páscoa põe os ovos?”

Pedro Passos Coelho

:: “O tempo Quaresmal, este ano, decorreu em quase todo o mundo num ambiente de privação, de tristeza e de inquietação invulgares. Também nós, não fugimos aqui a ele, no meio da pandemia. Ao entrar na semana santa, com a imagem bíblica da Ressurreição que a Páscoa assinala, sentimo-nos ainda mais unidos pelo seu simbolismo humanista. Todos desejaríamos fazer coincidir o calendário cristão com o fim das preocupações trazidas com o surto que está a varrer o mundo. Sabendo que não será assim, apartados dos nossos mais velhos e de muita família que gostaríamos de abraçar, separados também dos que partiram neste tempo de provação, esta Páscoa será diferente entre os vivos. Mas não exigirá um espírito menos comprometido com a esperança no futuro. Quando tivermos de lidar com os efeitos sociais e económicos que a pandemia vai deixar, toda a crença Pascal deverá ser partilhada e fortalecida por crentes e não crentes. Este ano, o espírito da Páscoa calará mais fundo e será estendido por um calendário mais alargado. Bem precisamos.”

Ricardo Pereira

:: “Quando penso na Páscoa penso sempre na reunião familiar, principalmente em casa dos meus avós, em Lamego. Tínhamos os tios, os primos, o almoço de Páscoa celebrado com entusiasmo e as comidas típicas, a visita do ‘Compasso’ a casa, as idas à igreja e á missa do dia. Era um momento que gostava muito, não só por ter a família reunida mas por ter uma série de tradições que me fascinavam. Os anos passaram, cada um seguiu o seu rumo, mas continuamos a celebrar a Páscoa. Este ano será diferente. Não vamos deixar de celebrá-la, mas cada um na sua casa; com harmonia e carinho, na mesma, valorizando a data em si. A união, mesmo à distância, tem de estar sempre presente nas famílias!”

Ruy de Carvalho

:: “A Páscoa continua a existir. Ela é dedicada a Cristo: Ele torna a vir ao mundo. Mesmo não estando todos juntos, ela vive-se na bondade e solidariedade que praticamos. Se pensarmos n’Ele estaremos juntos e a aproximação a Ele fará cumprir interiormente o sentido pascal.”

… Sérgio Conceição …

:: “A forma como penso, vivo e sinto esta época pascal é da mesma forma, como se não estivéssemos a atravessar este período difícil da pandemia. Ou seja, mantendo todas as tradições. Obviamente falta-me a ida à igreja, à missa e ouvir a homilia do padre. De qualquer das maneiras, posso ir à igreja ao lado de minha casa, que está aberta, e ali posso fazer sozinho as minhas orações. Em família, viveremos do mesmo modo o almoço de domingo de Páscoa e tudo aquilo que envolve a sexta feira santa. Confidencio que sou um dos cristãos praticantes que faz o jejum nos 40 dias quaresmais.”

Sónia Araújo

:: “Temos todos que ter consciência que este ano a Páscoa será, necessariamente, diferente. Por muito que nos custe estar afastados da família, não poderá haver almoço de Páscoa em família alargada. No meu caso costumo reunir-me sempre com os meus pais e até mais alguns familiares. Mas, este ano, seremos só os 5 de casa: eu, o meu marido e os três filhos. Faremos, como tem sido hábito, videochamada para os avós de ambas as partes e, assim, colmatar as saudades. A Páscoa será um ato de reflexão para compreendermos que, desta forma, estamos a preservar um bem maior: a saúde de todos.”

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Publicado por André Rubim Rangel

"Tripeiro" de gema: cidade e clube. Licenciado em Teologia, com um curso profissional de “Comunicação, Marketing e Assessoria de Imprensa” e mestre em Ciências da Comunicação – Jornalismo. Tenho, como ‘paixões’: a vida, a família e os amigos, os presépios, o ténis, as viagens, o roxo e o lilás, as entrevistas, a fotografia, a escrita, a leitura, o cinema, os U2, os doces e boa comida, etc..

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