Quando é que um cão deixa de ser um cão e passa a ser parte do tratamento médico de uma criança?

Vivemos num país onde os cães de apoio emocionais têm de apresentar mais documentos que um emigrante a entrar nos Estados Unidos. E se o cão, coitado, for de uma menina autista, então o carimbo burocrático pode transformar-se num martelo de destruição emocional.

Recentemente, um cão de assistência treinado para ajudar uma menina com autismo severo foi impedido de embarcar num voo da TAP, mesmo com toda a papelada em dia. A criança, que vinha a mostrar melhorias com a expectativa da chegada do animal, teve um agravamento no seu estado emocional por causa de… um “não embarca” vindo de quem gere aviões, mas parece esquecer que também transporta vidas.

Agora, vejamos os dois lados, para não sermos acusados de só saber ladrar.
Do lado da TAP, há regulamentos internacionais, critérios apertados e a necessidade de garantir a segurança e o conforto de todos os passageiros. Entende-se. Nem todos os cães são iguais e, infelizmente, há quem tente passar gato por lebre — ou melhor, cão de companhia por cão de terapia. É preciso verificação rigorosa, porque a bordo não há espaço para mal-entendidos. Até aqui, tudo certo.

Mas depois vem o lado humano — ou desumano, consoante a perspectiva. A família apresentou os documentos exigidos, o cão tinha um historial de treino validado, e a TAP, mesmo assim, disse que não. Faltava um “certificado emitido por uma entidade com reconhecimento na aviação civil”. Como se a menina estivesse prestes a pilotar o avião com o cão ao lado como copiloto.

É aqui que o sistema falha: quando o cumprimento de regras se torna mais importante do que o propósito das regras. A aviação civil é feita para transportar pessoas, não apenas corpos em cadeiras. Transportar uma criança com necessidades especiais devia ser sinónimo de prioridade, empatia e flexibilidade — três conceitos que, pelos vistos, não cabem na cabine.

E não, isto não é um caso isolado. A cada dia, há mais histórias de pessoas com deficiências ou necessidades específicas barradas por obstáculos absurdos criados em nome da “segurança” ou da “norma”. Mas quando as normas causam sofrimento, talvez esteja na altura de as pôr em revisão — ou pelo menos oferecer um café e um pedido de desculpas, em vez de um “sinto muito, é o regulamento”.

Se fosse um cão VIP de um influencer a voar em executiva, duvido que tivesse sido impedido. Mas como era uma criança e um cão “apenas” de apoio, o resultado foi um regresso à estaca zero para a menina… e mais um voo de relações públicas perdido para a TAP.

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Acha que a TAP agiu bem ao impedir o embarque do cão de apoio, mesmo com a documentação apresentada?

 

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