Todas as pessoas que trabalhem no atendimento ao público certamente já se viram envolvidas em atritos por causa da “nova” lei da prioridade.
Obviamente que se vivêssemos num país onde o bom senso imperasse não haveria necessidade de legislar acerca deste assunto, mas como não é o que acontece e pelo facto das poucas pessoas portadoras desta virtude já estarem fartas de ser comidas como parvas por aqueles que se acham chicos espertos, teve-se que definir regras sobre quem tem prioridade sobre quem.
Ora algo que me aborrece é a leitura diagonal das leis que muitos cidadãos continuam a fazer. A prioridade para pessoas acima dos 65 anos é apenas se mostrarem incapacidade física ou psicológica aparente ou se forem detentores de um atestado de incapacidade multiusos com grau de incapacidade de 60% ou mais. Ou seja, se celebrar seis décadas e meia confere descontos imediatos na CP não dá o privilégio de passar à frente na fila do supermercado.
Mas como houve a necessidade de legislar sobre prioridades eu defendo que também se deveria discutir em parlamento proibições a aplicar a certos grupos de cidadãos. Afinal viver em sociedade não é só direitos e regalias, há que haver deveres e responsabilidades.
Numa destas últimas sexta-feiras foi feriado em Sintra, zona onde se situa a farmácia em que trabalho. Já antevia que no sábado haveria uma afluência de clientela maior que o costume devido ao feriado, mas o que não previa era que quinze minutos depois de abrir tivesse mais de 30 pessoas em espera. E dessas 30 pessoas 80% eram idosos que estavam ali para levantar medicação crónica.
Não era um antibiótico ou um comprimido para as dores, eram medicamentos que fazem todos os dias e que aproveitaram para vir buscar logo de manhãzinha, entupindo o atendimento e desgraçando a vida daqueles que tinham mesmo urgência em levantar o seu receituário. E se alguns dos idosos sabiam o que queriam agilizando o processo, a maioria não sabia que embalagens costumava levar, ou não sabia o que queria na realidade queria comprar, ou mesmo nem fazia ideia de como ligar o telemóvel para aceder à mensagem que continha a prescrição. Por isso é que acho que se há a lei da prioridade também deveria haver a lei da proibição, uma lei que proibisse um certo grupo de cidadãos, que tem todo o tempo do mundo, de usar durante certos intervalos de tempo serviços como a farmácia, os correios, o supermercado, a piscina… Mais ou menos como acontece na China, onde dependendo da matrícula que o carro tem se pode conduzir apenas em certos dias da semana.
Se acham que esta lei é injusta então desafio-vos a manterem-se calmos quando reparam num grupo de seniores que passaram a tarde toda no café à conversa, e quando são seis da tarde e a farmácia começa a encher com as pessoas vindas do trabalho é que se lembram que também lhes apetece ir para lá, criando filas e demoras totalmente evitáveis se simplesmente tivessem tido o bom senso de irem a uma hora que não fosse de ponta.
Porque a maior parte das pessoas não vai ao supermercado ao fim do dia porque é uma óptima terapia após um dia extenuante de trabalho. Nem ao médico logo de manhãzinha porque a melhor forma de começar o dia é a ver a cara laroca do senhor doutor. Nem a correr na hora de almoço aos correios a mastigar meia sandes porque leu que comer tranquilamente é mau para a saúde.
A maior parte das pessoas activas laboralmente tem que ir a certas horas a certos sítios porque não tem mais nenhuma hipótese. Porque se tivesse garanto-vos que não se ia enfiar no meio da confusão apenas para ficar extasiada com o cheiro a suor e frustrações de pessoas alheias.
É que algo que as pessoas com tempo não percebem quando insistem em fazer as suas tarefas nas horas de maior afluência é que todos perdem por causa dessa atitude.
Perdem aqueles que não podem ir a outra hora despendendo por isso o dobro ou o triplo do tempo suposto. Perdem os profissionais que estão a atender ao público porque ficam arrasados com a sobrecarga de trabalho, tendo de estar constantemente a ouvir resmungos e suspiros chateados, enquanto tentam despachar trabalho. Perdem as pessoas que poderiam ir a outra hora mas insistem em aparecer nos períodos de maior afluência, porque em vez de serem atendidas calmamente acabam por ser despachadas mais a correr, não beneficiando de um atendimento de excelência.
Se às vezes o umbigo não fosse o centro do universo todos viveríamos muito melhor neste planeta chamado Terra.