in

Podia viver sem o Borda d’Água? Podia, mas não era a mesma coisa!

Créditos da imagem: tugafree.pw

Estou a caminhar há muito tempo, desde o Centro de Saúde, há mais de duas horas. Passei pelo Mercado e trouxe fruta, legumes e peixe, isto pesa, até que enfim uma esplanada. Atrás de uma coluna suja, uma mesa e duas cadeiras vazias. Hesito. Talvez não seja boa ideia sentar-me no único lugar que não foi escolhido, o chão escuro em redor da coluna de sustentação do prédio. Parece um lugar habitado por um sem-abrigo, ou então a casa-de-banho dos cães das redondezas. Mas vim a pé e estou cansada. Respiro fundo, um pouco de alento vai tornar-me um pouco mais humana. Sento-me numa cadeira e pouso os sacos de compras na outra. Preparo-me para observar o que se passa à minha volta. E vejo pessoas numa esplanada da Rotunda do Hospital, uma zona de tráfego intenso, o pára-arranca da respiração e do combustível, o preço a pagar por se morar numa grande cidade.

– Deseja alguma coisa?

– Um café cheio com adoçante, se faz favor.

Respiro fundo. A minha impaciência também respira fundo. Aqui não se passa nada, mas que chatice, estou a perder o meu tempo, devia ter ido tomar a bica ao Pingo Doce, ao menos lá conheço toda a gente e falava-se de trivialidades para acabar a manhã, comprava umas latas de atum em promoção, tomatinhos cherry e já está, um almoço baratinho e eficaz do ponto de vista nutricional, a minha nutricionista havia de ficar orgulhosa desta sua eterna cliente, que não há meio de perder os quilos a mais que carrega desde que se casou e deu á luz três crianças.…

– Um Borda d’Água, minha senhora?

Viro-me para trás e o homenzinho espeta-me o dito junto aos meus olhos, à espera.

– Deixe lá isso, tenho o último lá em casa e nem lhe abri as folhas. Não vale a pena comprar.

– Veja lá, olhe que o deste ano vem melhorado, tem muita informação útil que torna a sua vida mais fácil. O que é que a senhora faz?

E agora? Digo que dou aulas ou que escrevo poesia? Pensando bem, estou de férias, e desde que abro os olhos de manhã e os fecho à noite dedico-me à escrita. Se bem que ultimamente…

– Olhe, eu escrevo poesia.

Digo isto e sinto-me importante, pelo mérito dado às lides difíceis dos desabafos sentimentais.

– Ah, não me diga, é poeta.

O homem olhou-me com um ar um pouco desconsolado e baixou o braço, quase em desistência da sua missão.

– Não gosta de poesia?

– Nem é isso, minha senhora. É que não dá de comer aos meus. Já o Borda d’Água… Quantos mais vender, mais fartura tenho na mesa. E somos cinco, ao todo! Então e hoje, já escreveu algum poema?

– Por acaso não. Sabe que isto da escrita, não pode ser assim, a martelo, há que sentir a emoção e a inspiração. E depois escrever. Palavras bonitas, percebe?

Aquele homem simples na minha frente, cujo modo de vida é a venda de “Bordas d’Água”, e eu a tentar explicar-lhe o meu quotidiano criativo. Tenho mais que fazer, só me faltava este cromo.

– Ah, pois, palavras bonitas… E se eu lhe disser que o Borda d’Água pode inspirá-la? Palavras bonitas, não foi o que disse? Veja bem. Tem aqui as horas do nascer do sol. Escolhe o dia, vê a hora e vai ver o sol a nascer. E depois escreve. Palavras bonitas sobre o sol a nascer. Se não se quiser levantar cedo, vai ver o pôr-do-sol. Mas olhe que no Borda d’Água chama-se “Ocaso”. Não se esqueça, “Ocaso”. Se procurar “Pôr-do-sol” não encontra! Também estão aqui os horários todos da natureza, está tudo previsto, que ela não engana, é como o algodão! (ri-se). Olhe, vê tudo até ao fim e depois escreve as palavras bonitas que a senhora põe na sua poesia. Ou se preferir, as fases da lua. Olhe, a lua cheia, por exemplo. Há coisa mais linda que a lua cheia? Até eu dizia palavras bonitas sobre a lua cheia! Vá, compre-me lá um Borda d’Água, minha senhora, são só dois euros e vinte cêntimos!

Palavras bonitas por dois euros e vinte cêntimos. Um curso inteiro de poesia. Pensando bem, ando com tão fraca inspiração, talvez o Borda d’Água me salve. Um na mesa-de-cabeceira. O outro sempre comigo, viajante em busca de tesouros poéticos.

– Levo dois!

Na esplanada a abarrotar de gente anónima, cortei toscamente as folhas dobradas do Borda d’Água e procurei sofregamente a minha inspiração perdida. O homem simples afastou-se com um sorriso triunfante e cinco euros no bolso (não tinha troco, disse ele…).

As horas foram passando. Ao fundo da Avenida Gulbenkian, o ocaso do sol. No bloco de notas, um poema ausente.

Adília César

Também gostaria de publicar o seu artigo de opinião no nosso site? Clique aqui.

Vote nesta opinião

3 pontos
Upvote Downvote

Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Loading…

0

COMENTE ESTA OPINIÃO!

Medidas de anti-corrupção do Peru contra corruptos do governo e de empresas

Medidas de anti-corrupção do Peru contra corruptos do governo e de empresas

Um milhão e meio de razões para não pagar