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Pode uma criança pequena ser considerada Artista?

Créditos da foto: Associated Press

«(…) As qualidades infantis, que se deveriam conservar até à morte, como qualidades distintivamente humanas – as da imaginação, em vez do saber, do jogo, em vez do trabalho, da totalidade, em vez da separação. São essas, e não as outras, as que têm demonstrado os grandes criadores de ciência, os grandes artistas ou os grandes políticos. Por isso os perseguimos quando vivos e os aproveitamos, porque já eficientes, quando seguramente mortos. Não haverá salvação para o mundo enquanto não entendermos e fizermos penetrar em nossas consciências este facto basilar, e enquanto as nossas escolas, transformando-se inteiramente, não forem, em lugar de máquinas de fabricar adultos, viveiros de conservar crianças; enquanto não forem as crianças que nos levem, não pelo caminho que uma ciência fáustica previu, mas pelo que houver, dando a mão, ao mesmo tempo, a nós e às coisas; enquanto não for o Menino Jesus o nosso Deus verdadeiro.» (Agostinho da Silva, Um Fernando Pessoa [1959], in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I, pp.115-116)

A liberdade de expressão evoca uma simbiose entre pensamento e acção, entre emoção e pele. No princípio, sentir através dos sentidos e mais tarde, pouco a pouco, tomar decisões racionais e concretizar projectos. Do acto expressivo à obra de arte vai uma grande distância e muitas experimentações. Como educadora de infância tenho o privilégio de promover e acompanhar esse processo nas crianças que tenho a meu cargo, ano após ano (já são quase mil alunos…). Posso afirmar que poucas crianças considerei “artistas”, no sentido de as suas obras terem qualidade suficiente para serem expostas numa galeria ou museu, mas o o objectivo do jardim-de-infância não é esse. A intenção é a multiplicidade de experimentações, aproveitando a enorme capacidade que uma criança tem de se apropriar de conceitos e melhorar as suas acções através das actividades expressivas. Considero a minha função de promotora de educação artística essencial, apesar dos constrangimentos do sistema, o qual não valoriza esse papel. Mas estes primeiros anos são, sem dúvida, os mais importantes, são o campo primordial do conhecimento, onde não se deve queimar etapas, sob pena de não mais se recuperar o que se perdeu. Os jovens e adultos só valorizarão a arte se dela tiverem tido conhecimento logo a partir de tenra idade. A necessidade da arte decorre da expressão livre na infância, por isso, dar-lhe o tempo que ela precisa é um dever de todos, pais e pedagogos.

As reflexões sobre arte e artistas terão de passar, forçosamente, pela análise do caso Marla Olmstead, muito noticiado no ano de 2004 (tinha a menina 4 anos de idade), apesar de ser do conhecimento público, actualmente, uma mão-cheia de casos similares. A apreciação das produções artísticas das crianças é um assunto que não tem merecido grandes atenções por parte dos críticos de arte, ou dos museus e galerias. Contudo, existem provas “artísticas” (obras de arte) de crianças-artistas que terão toda a legitimidade de serem adquiridas por museus e galerias de arte para serem apreciadas pelo público em geral.

Pode uma criança pequena ser considerada “artista”? Podemos aceitar que as suas pinturas são “obras de arte” com valor estético e comercial? As crianças artistas – em todas as disciplinas da arte – fazem parte, ainda, de um misterioso campo de estudo. Os caminhos do pensamento criador no período da infância são como a geografia de um planeta longínquo apenas visível por satélite mas ainda inalcançável pelo adulto. Acreditar nas possibilidades criadoras das crianças pequenas é um dever de quem zela por elas e comanda as suas vidas.

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Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

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