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Paisagens Cénicas para a Educação de Infância

Paisagens Cénicas para a Educação de Infância

«Há muita gente, por hipótese, que nunca viu uma representação teatral. Por hipótese – e porque não há quem para existir não represente, e não há sociedade alguma, nem grupo humano algum, que não pratique a personificação dramática, sob um qualquer aspecto.» (Jorge de Sena, Do Teatro em Portugal, 1988)

O Teatro é a arte pública, pela comunicação e partilha entre actores e espectadores. Assim, seria a forma mais adequada para proporcionar desenvolvimento estético, uma vez que a actividade teatral ultrapassa a percepção individual. E se uma experiência só pode ser entendida como uma vivência partilhável e partilhada, não podemos ignorar a importância da recepção do espectador.

Em contexto de educação de infância, as decisões tomadas em relação às experiências artísticas e estéticas a proporcionar às crianças ainda é são questões de difícil solução.

Em primeiro lugar é necessário ter presente uma concepção de infância, onde os modelos e teorias do desenvolvimento e da aprendizagem das crianças apresentam dados importantes que não podem ser negligenciados, sendo a psicologia essencial para a configuração da psicopedagogia enquanto corpo teórico consistente. Tendo em conta a psicologia, aliada à sociologia, à semiologia e à estética, seria possível investigar modos de recepção das crianças pequenas, de forma a dar respostas às questões relacionadas com a criançasujeito-espectador de teatro.

Também as decisões do/a educador/a estão condicionadas pelo meio em que se insere e pelas disponibilidades culturais, sociais e económicas de outros parceiros no processo: companhias de teatro que proporcionam (ou não) espectáculos na área de influência; pais que autorizam (ou não) a deslocação do seu filho até ao local do espectáculo; autarquias que disponibilizam (ou não) o transporte necessário das crianças. Quantas vezes por ano usufruem as crianças de um espectáculo de teatro? Tendo em conta a conjunctura actual, não muitas.

Por outro lado, não se sabe muito bem o que é o teatro para a infância nem como se processa a recepção de um espectáculo de teatro na criança pequena. Aliás, tendo em conta o que se sabe sobre o que é uma criança, percebe-se que o adulto ainda não conseguiu encontrar um caminho adequado para a entrada no universo infantil, no qual impera a vida total e a imaginação. O desenvolvimento artístico e estético da criança pequena é vandalizado por uma intencionalidade que fraqueja e sufoca a cada mau espectáculo assistido, sendo também imperioso investir a nível do desenvolvimento da literacia artística e estética do/a próprio/a educador/a, de forma a salvar intencionalidades (artísticas e estéticas) facilitadoras da educação da criança enquanto cidadão total.

Se o teatro é para todos, se queremos criar na criança a necessidade do teatro, esse contacto deve ser iniciado o mais cedo possível. É necessário inventar caminhos entre o universo real e o universo artístico e estético da infância, para que todas as crianças tenham a oportunidade, porque já têm o direito, de serem protagonistas do seu próprio desenvolvimento.

Qual é, de facto, o papel das artes na educação: essencial, complementar ou apenas para divertir e distrair “quando há tempo”? Existem projectos relevantes nos jardins de infância, trabalha-se bastante a expressão dramática, mas a verdade é que as crianças não vão ao Teatro… E os adultos?

Sendo a infância um tempo breve e urgente, as suas paisagens cénicas são ainda mil e uma utopias a intentar ser vida e verdade. Até quando?

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Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

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