in

Os silêncios da Infância

Créditos da imagem: site AWEBIC

«A história da infância, a história da criança constituem, até certo ponto, histórias de silêncios, de crónicas que ninguém escreveu.» (Rogério Fernandes)

O mês de Junho inicia-se com a comemoração do Dia da Criança. O mundo acolhe, apregoa e festeja o mundo da infância de formas diversificadas e concretas: diversões à disposição dos mais pequenos, palestras para os mais velhos, apresentações de livros, exposições e concertos temáticos, etecetera.

O que é ser uma Criança na contemporaneidade? Em larga medida, é o que se entende sobre a própria infância. Infância escreve-se no plural: é uma categoria histórica, social e psicológica e corresponde a um número colossal de diferentes crianças com características, expectativas e direitos muito variáveis ao longo dos séculos. Se pensarmos sobre os escritos relativos às crianças, desde que elas se tornaram objecto de estudo, verificamos que essas vozes não são as das próprias crianças, antes são produzidos por aqueles que já não são meninos e meninas. Predomina, portanto, um olhar adulto e deformado, o qual se afasta da essência da infância.

A infância é uma classe natural, social e histórica (inata e também construída). Corresponde a um período trans-histórico, uma vez que, independentemente da diversidade histórica e cultural, parecem existir certas características partilhadas por todas as crianças humanas, ou seja, traços universais e comuns à infância de todas as épocas e até mesmo sequências evolutivas mais ou menos invariáveis. Sim, seria tentador pensarmos desta maneira e até seria mais fácil lidarmos com as crianças de hoje.

Contudo, este enfoque biológico é, na realidade, redutivo ou mesmo abstractivo, pois o conteúdo desta descrição seria na verdade deficiente, ao excluir necessariamente aqueles traços de aculturação e sociabilização que influem na construção da criança como indivíduo concreto enquanto pessoa.

O que é a infância, na sua essência, na sua natureza e nas suas manifestações? Em larga medida, sendo as crianças objecto de estudo, a categoria social infância é produzida pelas ideias que os adultos elaboram sobre as crianças nos sistemas periciais (principalmente nas universidades, agências de conhecimento e instituições de investigação) os quais contribuem de forma decisiva para a formação dos modos dominantes de interpretação da realidade e dos fios condutores da acção. Disseminadas pelos media, as ideias dominantes sobre a infância contribuem poderosamente para a determinação de atitudes e de práticas dos adultos para com as crianças. Deste modo, podemos dizer que os conhecimentos adquiridos no desenvolvimento da investigação também produzem a realidade social, ao induzir atitudes nos adultos face à infância, ou seja, o senso comum é alimentado pelo conhecimento.

Estaremos nós, adultos, a ter as atitudes certas em relação às crianças? Sim, não, talvez. Muitos erros são cometidos, certamente, tendo em conta o tipo de crianças que dá corpo à infância actual: insucesso escolar, atitudes inadequadas, violência, bullying, sofrimento, suicídio… Os Tribunais de Família e Menores estão “entupidos” de processos em que os adultos não souberam lidar com as crianças que tinham a cargo.

Que podemos fazer para minimizar os estragos? Deixo uma proposta muito simples: vamos ouvir o que as nossas crianças têm para dizer sobre elas próprias e sobre o seu mundo, para que as crianças não sejam apenas o que os adultos pensam sobre elas. Deste modo, as particularidades específicas da infância serão incorporadas pelos próprios sujeitos e não por outros que não as compreendem. Chamo a atenção, por exemplo, para as crianças ditas autistas, tão incompreendidas ainda nos dias de hoje.

«- Eu é que sei!» – pode parecer uma afirmação abusiva se a ouvirmos por parte de uma criança, mas vale a pena escutar as suas palavras e os seus silêncios…

Adília César

Também gostaria de publicar o seu artigo de opinião no nosso site? Clique aqui.

Vote nesta opinião

3 pontos
Upvote Downvote

Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Loading…

0

COMENTE ESTA OPINIÃO!

Eutanásia!?.Sim ou Não?

Bolota, Erva, Haxixe?