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Os invisuais e a Leitura: O texto escrito vale mais do que mil imagens

Os invisuais e a Leitura: O texto escrito vale mais do que mil imagens

O que é “ler”? É pensar sobre o pensamento, passear de imagem em imagem nessa paisagem de palavras. Um “olhar” breve sobre algo que nos foge a cada instante. E então escrevemos. Escrevemos para ler. Escrever é outro modo de ler.

Desde que aprendi a ler que sinto curiosidade sobre o processo de leitura das pessoas invisuais. Como se apropriam das imagens que o escritor invoca? Como validam a informação para a tornarem sua? Qual a leitura que fazem do mundo que as rodeia, de forma a enriquecerem o seu próprio mundo?

Ocorreu-me então que sendo invisuais ou não, cada um de nós “lê” de maneira diferente, através do corpo, dos sentidos e dos pensamentos que já domina. Lê as palavras e as imagens breves que elas possuem. E nos espaços entre as palavras recriam-se ainda outras leituras, outros significados para as palavras. Como se fossem paisagens do pensamento que levaram às ideias. Um texto, mil paisagens. Um texto escrito vale mais do que mil imagens.

A pessoa invisual também tem o corpo, os sentidos (excepto o da visão) e os seus pensamentos. A paisagem que compõe das leituras que faz, tem a ver com as camadas que acrescenta a esses pensamentos que eram de outros e agora quer fazer seus, através da leitura braille, a partir das imagens que o escritor tenta projectar, como um quadro impressionista. Assim, o escritor invoca imagens e a pessoa invisual agarra essas paisagens mentais, através dos meios ao seu alcance e organiza-as, de modo a “olhar” e a compreender o seu significado. Tal como a pessoa não invisual.

Pequenas reflexões como esta fazem-me compreender melhor a deficiência. Somos todos diferentes. A deficiência é apenas um pormenor.

Adília César

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Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

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