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Os Escritores que escrevem (para) o Futuro

Os Escritores que escrevem (para) o Futuro

O escritor que escreve (para) o futuro é invisível no presente e já vive no futuro. É lá que se situa a sua zona de desconforto. No corpo e no pensamento dos escritores que transgridem, moram as narrativas do futuro. O caos do desconforto é uma casa sem portas nem janelas. Nos silêncios que gritam, abrem-se as portas e as janelas que antes não sabíamos que existiam.

O escritor que escreve para o futuro retorna uma e outra vez ao tempo presente para deixar cair as camadas inúteis e exibir sem pudor a sua nudez interior, o corpo da narrativa. Mesmo que esteja inquieto ou apavorado, caminha sobre as dúvidas da sua existência e as brasas da consciência do mundo. Sente a tortura da melancolia e das dores dessa passagem, mas mesmo assim não desiste. Transcende a vulgar realidade ao seu alcance, que parece esculpir-se num bloco de gelo, a derreter à medida que a mediocridade do texto luta em vão pela sua sobrevivência.

Os romances dos escritores que escrevem para o futuro são exactamente o oposto. São como um rio que desagua e congela na consciência dos homens e aí permanece, assumindo uma geografia emocional e racional, desenhada num mapa exclusivo daqueles intervenientes – aquele escritor e aquele leitor – ainda que situados em pontos tão distantes na linha do tempo, como as extremidades de uma ponte que une dois lados contrários do pensamento, uma ponte para a salvação do livro.

O escritor que escreve para o futuro procura continuamente, até onde a vista já não alcança, os limites da sua existência, que vive no seu corpo e no seu pensamento e respira com ele e também respira por ele. Quando morre, é o verbo do corpo eterno no cosmos da memória. Mas por enquanto, ainda está aqui, junto de nós, numa circunstância presente da sua escrita, a unir-se a outras escritas, outros pontos luminosos conscientes da sua própria incandescência, a diminuir as distâncias que os separam.

Os escritores que escrevem para o futuro são os profetas do mundo e mergulham no escuro para encontrar a claridade. 

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Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

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Até onde podem ir os delírios de uma ex-colega ressabiada?

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