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Os amigos (não) são para as ocasiões

Os amigos (não) são para as ocasiões

Quem é um amigo? «Um outro eu.», disse Zenão de Eleia, um filósofo pré-socrático da escola eleática que nasceu em Eleia (hoje Vélia, Itália). São famosos os paradoxos que criou, a partir dos quais não pretendia refutar diretamente as teses que combatia mas sim mostrar os absurdos das mesmas, ou seja, a sua falsidade.

Por vezes, socorro-me de Zenão de Eleia e penso no paradoxo que enunciei no título desta crónica: «os amigos são para as ocasiões», assim diz o ditado popular, mas eu creio que é precisamente o oposto, ou seja, «os amigos não são para as ocasiões».

Todos nós formulamos teorias sobre o que é um amigo e o que é a amizade. Também sabemos quem é nosso amigo de verdade. Mas rapidamente desistimos de um amigo ao mínimo contratempo. Todos tivemos ou teremos decepções neste território. O facebook em muito contribuiu para a formulação de novas teorias da amizade, ao possibilitar actos estranhíssimos, como “pedir amizade”, “desamigar” e “bloquear”, confundindo actos virtuais com actos reais.

Actualmente, a amizade está equiparada a «uma central de cunhas, palavrinhas, cumplicidades e compadrios» (Miguel Esteves Cardoso, in ‘Explicações de Português’), como se a utilidade fosse a característica mais importante das pessoas que podem, eventualmente, ser nossos amigos.

Penso muito sobre os sentimentos que nutro por outras pessoas. Quero perceber se esta ou aquela pessoa tem ou não a minha atenção e dedicação, e porquê. Clarificar os conceitos sem demagogias ou falsos pudores. Ao amigo, para ser meu amigo, basta eu saber que ele existe, que está ali. Essa pessoa especial até pode ser perfeitamente inútil no sentido de nada esperar dela, a não ser a sua própria existência. A amizade não tem condições ou expectativas, tal como o amor. E não pode estar sujeita a regras comerciais, a trocas emocionais (ou outras) obrigatórias. A amizade é energia, estremecimento, equilíbrio. Uma outra forma de ser eu: uma alquimia. Por isso um amigo é tão valioso para mim e também pelo mesmo motivo a traição de alguém que julgava ser meu amigo pode ser tão dolorosa no plano afectivo.

Então, reformulando o conceito, diria que um amigo pode ser a luz de um susto alegre e colorido, um súbito que é brilhante no seu princípio mas depois se torna apenas fumo. O lugar da amizade difunde-se então para outro lugar, mais sinistro, indiferente e ausente. É a ausência que marca a memória, mas mesmo assim, não é o completo vazio. Há uma pequena nódoa de gordura que teima em permanecer. Tenho, ou melhor, tive amigos assim. Súbitos de luz que se apagaram, por não terem cumprido a tarefa de iluminação da minha vida. Agora, apenas existem num plano abstracto, como um idioma que esqueci e já não sei falar. Sem rancor ou benevolência, não lamento a perda.

Os amigos são para as ocasiões? Não, mas um amigo é uma ocasião para ser mais do que sou sozinha. Um outro eu melhor.

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Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

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