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Opinião Agridoce

Opinião Agridoce

Já foi tido como especiaria, medicamento, adoçante e nenhum mal teria vindo ao mundo se tivéssemos continuado a consumi-lo raramente e com moderação, como sucedeu durante milhares de anos. O açúcar era um bem raro e o organismo habituou-se a armazená-lo, sob a forma de glicose, para ter energia de reserva para os períodos de carência alimentar. Mas um dia tudo mudou. E se é verdade que a primeira grande alteração ocorreu há dez mil anos, com o surgimento da agricultura, a segunda culminou na sequência da grande Revolução Industrial, quando o homem pôs de lado as farinhas e os grãos integrais e passou a consumir cereais refinados e géneros alimentícios processados aditados de açúcar, como cereais de pequeno-almoço, refrigerantes, iogurtes, compotas, douradinhos, lasanhas, salsichas, almôndegas, molhos ou sobremesas.

O açúcar é uma substância sem qualquer valor nutricional – fornece calorias vazias, de absorção rápida, e causa problemas metabólicos, que estão na origem de muitas complicações. O único açúcar de que o organismo necessita é o que absorve no processo de digestão dos hidratos de carbono complexos – leguminosas, hortaliças e alguns legumes, que se transformam em glicose lentamente – e o da fruta, a frutose – que é um açúcar rápido, mas contém fibras, que ajudam à digestão e aumentam a saciedade.

O gigante que suporta as Estrelitas e outros quantos de nomes familiares, gasta cerca de milhões por ano em pesquisa, e diz que «tem vindo a investir muito esforço e dinheiro ao nível da redução de sal, açúcares e gorduras, principalmente nas categorias com mais relevância nos produtos dirigidos a crianças». O irónico gigante que tem investido tanto em adicionar e agora investe tanto em reduzir. Mas é tudo uma questão de contas. Enquanto que com as novas receitas, garante menos de 9 gramas de açúcares por porção de 30 gramas, verifica-se que a referida gama de cereais contém entre 25 e 30 por cento de açúcar adicionado, isto é, por cada 100 gramas de produto, entre 25 e 30 gramas são droga industrial sintetizada e processada pelo tal gigante que se esforça tanto para dirigir os seus produtos para os primeiros anos de vida de um futuro ser viciado.

O açúcar estimula a secreção de serotonina e dopamina, dois neurotransmissores que nos dão prazer. Quando ingerimos açúcar, o cérebro fica em alta. O problema é que quando a serotonina baixa, sentimos os efeitos da quebra e somos incitados a comer mais doces, com todas as complicações que daí advêm.

O açúcar é tóxico, induz dependência e deve ser visto como um verdadeiro problema de saúde pública. E o mais amargo disto tudo: é profundamente legal. Vão sendo aplicadas taxas de imposto sobre alguns produtos para inglês ver. E coincidência ou não, só me vem à memória a indústria tabaqueira, que vive da toxicidade e do vício, que também aumenta o preço do tabaco numa tentativa de transparecer preocupação e mitigar a hipocrisia, mas que ao mesmo tempo continua a viciar e a garantir a eliminação de todas as tentativas de dissuasão.

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