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Onde nos leva o desamor da solidão?

“Um homem sozinho está sempre em má companhia” (Paul Valéry).

Encontrei, finalmente, um pensamento que contrarie aquela expressão popular – usada regularmente – do “mais vale só do que mal acompanhado”. E em “um homem” da frase entenda-se, naturalmente, “uma pessoa” (é o mais correto, para ser neutro, por causa do género). Que a má companhia de alguém, curta ou perene, nunca seja motivo para se ficar só. Ou se pretender ficar muito sozinho, mais e mais. Não faltam outras companhias que, em cada um/a de nós, provoquem salutar osmose, empatia e simbiose. Que nos façam ser gente que sente e que se sinta bem. Em bem-estar contínuo.

O fim de semana que acabou de passar foi apoquentado por uma notícia chocante. Uma realidade que nem sempre se sabe desta forma, mas que está a soldo. E que não pode deixar quem quer que seja indiferente. A solidão. Aliás, a perturbadora solidão. Aflitiva e infligida. Eis que uma senhora viúva – sem filhos – foi encontrada, no seu apartamento, já morta há 15 anos! Sim, 180 meses, não 15 dias (e, mesmo assim, seriam muitos!). Li duas reações nas redes sociais que corroboro, que me interpelaram e ajudaram a que escrevesse, hoje, sobre este tema. Uma, a do escritor Francisco Moita Flores, com três pertinentes perguntas retóricas que – infelizmente – permanecem demasiado tempo sem resposta. “O que significa este esquecimento? O que quer dizer tanta desnecessidade de uma presença? Como é possível este pedaço de vida/morte sem alguém bater à porta?”. Outra, a da psicóloga Carla Ravazzini, em que refere que “a solidão forçada desumaniza-nos e torna-nos descartáveis e invisíveis”… Esta não é uma solidão boa, nem nunca será!

Pode até haver solidões boas, e há, tais como um retiro espiritual em determinada altura da nossa vida, perante decisões difíceis, etc.. Esta solidão é “o lugar da purificação”, para Martin Buber, ou é “essencial à fraternidade”, como exprime Gabriel Marcel. Mas, essas, solidões controladas e reguladas cronometricamente. E os demais familiares, amigos e colegas sabem dessa “solidão” concreta, diminuta ou somítica, para atingir determinados objetivos positivos. Há até pensadores que consideram o ser-se solitário como uma mais-valia: “Grandes homens são os mais solitários” (Charles Bukowski) e “O homem mais forte do mundo é o mais solitário” (Henrik Ibsen). Mas nem sempre é assim! Pois, para Joseph Conrad, até “homens sozinhos são capazes de qualquer fraqueza”… E as fraquezas têm tanto de tentadoras como de devastadoras. Elas estão à vista, como moléculas formadas por várias partículas – cada um/a de nós – que se propagam “num mar de distância, que explodiram de um todo original” (Ian Caldwell).

Como pode alguém estar sólido na sua decisão ao privar-se em profunda solidão? Ao ponto a que chegamos para deixarmos que ela exista e subsista!… Para que ela mate e/ou seja um “xeque-mate” na vida de tantas pessoas, que não só idosas. A solidão mata, tal qual a descriminação. A solidão é uma vida sem vida, passiva do afetivo e do cognitivo. Que vai rastejando, sem sentido. Sofrendo. Ou já indolor, de tanto sofrimento camuflado, contido. A solidão é a junção da inação do sol – ausência de calor humano – com a inação da doação, como a entrega a alguém. De alma e coração. Fossilizado o encontro, bombeia uma atitude disseminada de desencontro sem reencontro. A solidão perde-se nesses prismas sem arestas. E pode ela enterrar-se através do que nos faz iguais enquanto pessoas: no desejar amar e ser amado. E, ao mesmo tempo, prismas que nos fazem diferentes, em incutir a alguém um abandono atroz. Infecundo. Despojado de tudo e de todos. Esse que foi carne da sua carne, sangue do seu sangue. Atirado para a frieza do chão, sem teto protetor. Assim é devastadora a solidão. Sem sol nem ‘dão’, de doação. Do dar-se a si próprio ou algo de si, mais e melhor do que dar algo material. Pois o imaterial e espiritual somos cada um/a de nós. Estamos perante o Ser sem ser, agarrado ao ter e deter. Ao vazio… Não permitamos o isolamento de alguém que conheçamos. Sobretudo, um isolamento reincidente e (in)consciente de quem o toma. Um mal auto-infligido, imposto para si próprio. Há sempre estes dois lados da barricada: o remeter-se alguém para a solidão nua e crua, ou esse alguém querer isolar-se completamente. A todo o custo.

À espuma dos dias e dos tempos, numa selvajaria de sentimentos e constrangimentos… Recordo-me, por exemplo, de outras situações. Quantos idosos são largados e atirados para um lar? Sem dó nem piedade. Há muitos ditos “lares” que funcionam bem. Porém, quantas vezes alguns desses lares não estão preparados para erradicar a solidão? E, pelo contrário, vão sendo promotores da mesma. Apenas parecem, tantas vezes, máquinas de fazer dinheiro, sem desenvolverem a solidariedade social. E que tanto apregoam! “A velhice poderia ser a suprema solidão, não fosse a morte uma solidão ainda maior” (J. Luis Borges). E há mais dimensões de complicadas solidões, que importa frisar, sobre as quais Carlo Maria Martini escreveu. Passo a citar: “Há a solidão de tantos enfermos que não se sentem convenientemente assistidos pelos serviços públicos; que têm de esperar horas desgastantes para conseguirem ser tratados, que não recebem, mesmo na prestação de indispensáveis tratamentos, a atenção e o desvelo de que o seu sofrimento teria tanta necessidade”. Aponta ainda “a solidão dos handicapés, em particular dos psíquicos, dos doentes mentais e das suas famílias. Penso ainda na solidão dos encarcerados, na dos que esperam ser julgados, expostos dia após dia a uma angustiosa expectativa; na solidão e na fadiga daqueles que, de qualquer modo, trabalham nas prisões”. E destaca, também – para além das outras solidões aqui já referidas –, a “solidão das dezenas de milhar de estrangeiros anónimos que vivem à margem ou fora da legalidade, sem proteção e sem trabalho fixo”.

Que mágoa, que tristeza, é o de pensar que, um dia, quando morrermos – só Deus sabe quando e de que forma – poucos serão, ou porventura ninguém, os que notarão a nossa ausência. Assim, como nós, por vezes não manifestamos devidamente a perda dos que vão partindo antes de nós. E que foram alguém para nós. Quanto mais não seja um incenso de conforto, de inspiração, em algum momento da nossa vida. O ritmo da própria vida e o tão flamejado stresse não deveriam continuar a ser desculpa. A razão de haver, cada vez mais, pessoas sozinhas é o horizonte invertido, aos pinotes, que tantos adquirem como certo: o individualismo. A modernidade e a corrente pós-modernidade levam a esta realidade de perda acérrima de valores. Quase absolutizada! O resultado está à vista, quer queiramos, quer não. Só depende de cada um/a de nós, tapar essa brecha, saná-la e reforçar as relações com elos genuínos e duradoiros. Elos de companheirismo, de amizade recíproca e de forte familiaridade. De autêntica fraternidade. De fraterna autenticidade.

A solidão faz do desapego facilidade. A solidão é a falsidade da humanidade. Com letra minúscula. Torna-a impotente e insuficiente. É o silêncio gritante que não grita, mas que sufoca na escuridão feita rouquidão. É uma voz sem vez, sem som, caída num cadoz. Despiu-se de tom. Deixou de ser ora veloz ora feroz. E que gostaria de ter na cultura do amor a sua foz. Oh, se não gostaria!!! Face a tudo isto, sinto que – depois de olhar e ver (pouco, pois tanto que se nos oculta e nos é dificílimo observar sem os olhos do nosso interior) – ainda vivemos numa casca-de-noz. E não sabemos, não percebemos. De tão fechados em cada um/a de nós, mesmo quando queremos ir e vamos ao encontro do outro. E, todavia, não estamos verdadeiramente com ele. Só para ele, sem qualquer inquietação ou distração! E essa casca, como tudo na vida, tem o seu tempo. Um dia quebrará. Um dia ficará só se a deixarmos só. Um dia morrerá para si, sem morrer de vez, se a afastarmos da companhia das outras cascas… Que são castas humanas, que podemos ser eu, tu e todos nós. Combatamos, juntos, a disfunção da solidão!

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Publicado por André Rubim Rangel

Nascido em 1977, é "tripeiro" de gema: cidade e clube. É licenciado em Teologia (UCP), com um curso profissional de “Comunicação, Marketing e Assessoria de Imprensa” (AEP), mestre em Ciências da Comunicação – ramo Jornalismo (UFP).

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