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O verdadeiro valor do sofrimento que é deixar a família para trás

“… Meu Amor …

Escrevo-te estas palavras porque não tas poderei dizer pessoalmente…

Perdoa-me princesa, mas destas vez o inferno ganhou!!

Bem que me pediste para não ir àquele toque de sirene… aquele maldito toque de sirene…

As lágrimas escorrem-me pela cara abaixo porque no meio deste clarão imenso, deste calor que me queima a alma vejo a cara dos nossos meninos.

Aquele abraço apertado que a nossa princesa me deu á porta, “volta pexa papa”… aquele fixe pela varanda que o menino me mandou orgulhoso ao ver-me sair pelo fundo da rua…

Ele que dizia a todos na escolinha com esse mesmo orgulho que o pai é um herói porque “vai apagar fódos”… ahahah… um herói..

Está tanto calor princesa…

Não vejo os outros, não sei onde eles estão. Só ouço vozes, berros, gritos…

Gritos de angústia, dor e tristeza… mas o fumo não me deixa ver nada.

Somente ouço…

Ouço o crepitar destas labaredas infernais, ouço o barulho ensurdecedor das chamas enquanto elas consomem tudo o que lhes aparece á frente, ouço umas senhoras que gritam ajuda ao longe, amor, mas não as posso ajudar, não consigo…

O Chefe está a gritar no rádio para fugir, grita desesperadamente mais parece que a alma lhe está a sair pela voz.

Mas não temos por onde fugir…

O maldito incêndio cercou-nos…

Mas não fiques triste, por favor, não chores meu amor!

Lembra-te que fui a fazer aquilo que mais gostava, tombei em serviço mas levo o peito cheio pelas pessoas que ajudei na minha vida.

E não há medalha melhor que esta, não pode haver!

Mas a verdade é que agora, aqui, pergunto a mim mesmo se valeu a pena. Afinal, a falta de agradecimento é agraciamento garantido.

Mas o tempo haverá de curar a ferida…

O tempo cura tudo e não vai de faltar muito para que, depois de arrumada a bandeira da associação erguida a meia-haste, as flores murchem na campa rasa lá no cemitério.

Que calor que está…

Mas o meu corpo, esse sinto-o gelado…

Já custa a respirar e este calor já fere…

Sinto a pele apertar parece que a roupa encolheu mas eu continuo a mexer o corpo para sentir que estou vivo.

As chamas estão cada vez mais perto, não sei quanto tempo elas demorarão a chegar aqui.

Ah paixão, como eu queria poder voltar o relógio atrás. Como eu queria poder olhar-te mais uma vez nesses teus lindos olhos azuis e dizer-te o quanto te Amo…

Sentir o calor e o doce do beijo uma última vez… maldita a hora que não to dei quando saí, mas acredita, sempre pensei voltar a casa.

Mas não volto… infelizmente não volto mais meu amor…

Os gritos pararam…

Que silêncio…

Já não ouço nada a não ser o crepitar das chamas…

Será que eles conseguiram fugir?!…

Oh Deus, espero que sim!!

Perdi as forças, não consigo lutar mais contra isto…

Sinto o corpo enfraquecido e o peito já mal enche de ar…

Que dor que este calor faz…

Tive de jogar o capacete fora, os elásticos e os óculos estavam a começar a derreter.

As chamas estão aqui perto amor, esse diabo está junto de mim…

Fiz um buraco para enfiar a cara porque já queima respirar.

Que calor…

Meu Deus…

Diz aos meninos que os Amarei Eternamente, estarei com eles sempre!!

E todas as noites quando sentirem uma brisa na cara serei eu que vos beijo no meu silêncio.

Pede Perdão por mim á nossa menina, o pai não conseguiu voltar depressa para casa… mas diz-lhe que levo aquele abraço comigo e não me esquecerei nunca da doçura com que ela me abraçou.

Ao nosso menino, pede-lhe também Perdão

.. porque o pai não é nenhum herói, o pai era somente um ser humano com uma paixão doida por salvar os outros. E hoje salvou, hoje salvou…

A ti meu Amor, levar-te-ei comigo para todo o sempre!! Os nossos sorrisos, os nossos olhares, a nossa cumplicidade, a nossa paixão e os frutos do nosso Amor… estarão comigo para Sempre!!

Pede desculpas por mim as pessoas que não consegui salvar. Diz-lhes que eu tentei, que nós tentámos!! Tentei com todas as minhas forças, com toda a minha vida…

Afinal é esse o lema que eu seguia, a divisa que todos os meus irmãos Bombeiros defendem “Vida por Vida”!

O fogo está aqui…

Um clarão tão grande que ilumina a terra…

Vejo a nossa viatura lá ao fundo, mas está preta, ardeu…

Este barulho tão grande parece quase saído dum filme…

Que calor, meu Deus, que calor…

Não dá…

Já tudo arde…

Adeus meu Amor…

Adeus…”

Texto de Marco Francisco

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Publicado por Diário de um Bombeiro

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