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O Valor da coisa

Os mais velhos ainda se lembram quando, até há alguns anos atrás, as coisas tinham valor,  tinham côr, apelo real e substância que determinava quer esse mesmo valor quer ainda a sua continuidade futura; havia diferenciação, singularidade, inteligência apreciativa e uma  perspectiva de investimento era sempre determinante para consolidar o “valor” dum negócio ou aquisição.

A  reviravolta nos conceitos começou a dar-se nos anos setenta com o advento da “revolução de Abril” que escancarou as portas da clausura e do conservadorismo às pessoas. Manifestamente positiva que foi, abrindo às pessoas uma liberdade que mereciam mas a que não estavam habituados, também trouxe contraditória e gradualmente comportamentos e atitudes contrárias ao bom senso, à inteligência e à própria honestidade das coisas e seus conceitos.

Claro que as influências advindas do exterior e os falsos acenos de “liberdade” deram  uma boa ajuda. Aí estava o início do consumismo, sempre alimentado pelos conceitos globais e distorcidos de igualdade, liberdade, direitos e conforto de repente trazidos de mão beijada a uma população ansiosa de algo diferente e dourado.

Passámos todos a ter uma “nuvem só para nós” que o mesmo foi dizer – “se não tens como pagar o eldorado não tenhas problema que há quem te empreste, se o teu vizinho tem porque pode nem precisas de saber se é com  recursos dele ou não pois tu és igual e podes ter o mesmo, nós emprestamos”.Era a mina de ouro a nascer para as sociedades financeiras e Bancos, era o advento da distorção completa do valor da coisa.

De repente começou a atribuir-se valor a bens perecíveis, todos puderam ter as suas versões do mais charmoso vestuário, das melhores refeições fora de casa, da fúria desenfreada pela aquisição de mobiliário de prestígio mas sem qualidade intrinseca, daquele automóvel igual ao do vizinho, etc. etc. etc. As áreas financeiras rejubilavam e os Estados acompanhavam como mais uma forma indirecta de coletar mais impostos; às palavras  DIREITOS, LIBERDADE, CONFORTO, IGUALDADE, COMÉRCIO, CRÉDITO juntava-se agora uma outra que iria de servir para sustentar tudo isto: GLOBALIZAÇÃO

Antigamente  adquiria-se um terreno para construir uma casa individual e essa era a forma mais valiosa do bem, hoje colectivamente pouco vale. Contráriamente um terreno autorizado para edifícios empilhadores de famílas vale os olhos da cara, pudera, pois muitíssimos mais impostos gera.

Todos se esqueceram que deixaram de investir 10 num terreno que dura para sempre e passaram a investir 50 num apartamento que em muitos casos não chega a ser usufruindo pelos seus filhos pois também se degrada  com os anos e depois nada vale.

A ilusão de sermos felizes passou a ser algo egoísta e vale muito mais do que as coisas que permanecem. Mas o que querem?? Todos felizes…Antigamente compravam-se móveis talvez um pouco mais caros, mas resistentes à degradação, e ao uso porque eram de longe construidos com melhores materiais e construção.

Hoje o que vale são os Ikea, as Conforamas e outros que tais comerciantes do usa e deita fora (o mesmo usa e deita fora dos artigos plásticos que agora começam a contaminar o mundo…). Mas atenção que se as marcas forem “exclusivas” e não adquiridas naqueles grandes espaços, apesar da construção e materiais  não serem  muito diferentes, então estes objectos perecíveis passam a custar muito mais do que aqueles móveis antigos bem construídos custariam hoje e os adquirentes impados de orgulho por serem possuidores de autenticos ícones de luxo que no fundo nada valem.

Mas o que querem?? Todos felizes….Antigamente  pedia-se  por um apartamento,  valores  que tinham a ver em especial com a sua idade, estado, área,  localização  e custo de impostos. Alguns desses fundamentais conceitos hoje estão esquecidos ou reduzidos. Hoje para que a especulação  perdure  dá-se mais valor ao facto de terem “um excelente terraço”,”acabamentos de elevada qualidade”, “vista incomparável” e outros que apenas usam e abusam das modas e influências que a publicidade traz à cabeça das pessoas.

Como justificar que se peça por uma casa com 150 m2 um valor e outra casa com a mesma idade, área e no mesmo local mas com uma decoração de “bom gosto” e “materiais atrativos” custe o dobro?? Certo que temos  um mercado livre mas é muito suportado em factores que  mais têm a ver com o endeusamento de conceitos fúteis que norteiam os comportamentos e que são encorajados pela maioria dos responsáveis pela sociedade com interesses comerciais e lucrativos, apenas! Mas o que querem?? Todos felizes….Antigamente  comprava-se  um  véiculo  por ser  robusto  e durável, ou consumir  menos ou ser confortável, comprava-se um equipamento por durar e ser útil.

Hoje adquirem-se items como esses porque possuem um sem número de funções “douradas”, nem que a sua estrutura seja inferior. Hoje troca-se um  bem  desses porque está desactualizado, pois é assim que essa imagem nos é transmitida e mesmo que não utilizemos essa funções é muito mais bonito para mostrar ao vizinho. É isto que vale apesar de nada valer.

Entretanto deitamos  dinheiro fora pois talvez fosse  suficiente o  mesmo  item  que  servisse apenas o nosso uso e que decerto custasse um terço do preço que pagámos por algo inútil. Mas o que querem?? todos felizes…

Hoje em dia o valor para o indivíduo  é o da  “felicidade”  quase sempre fugaz, irreal e induzida por interesses alheios, já não é do valor da coisa que se trata.

Os valores  (escamoteados) esses, para a sociedade, são a nossa preguiça, desinteresse, permeabilidade, capacidade de sermos influenciados, incapacidade para usarmos a inteligência, falta de solidariedade e tudo o que nos ligue numa mole amorfa que caminha no sentido do consumismo, da destruição da individualidade, da globalização  que hão-de levar à destruição  do mundo por interesse duma minoria e por acomodação dos restantes.

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Publicado por Tavares

Pensamento, justiça, honestidade

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