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O “peido” de Salvador, a diferença entre ver um artista e escutá-lo

Senti necessidade de vir escrever algumas palavras sobre o peido (não consumado, importa dizer) de Salvador Sobral. No cúmulo da surpresa, tenho encontrado reações de quem julgou aquele momento ou como uma ofensa ou como uma piada. Mas eu, na qualidade de alguém que estava na Meo Arena a assistir ao vivo ao espetáculo, posso dizer com alguma segurança: não foi nem uma coisa nem outra.

As palavras que Salvador Sobral pronunciou foram uma crítica cansada ao que estava a acontecer na Meo Arena em torno da sua atuação. Durante a interpretação da primeira canção (desconhecida do grande público, para quem Salvador é apenas o vencedor da Eurovisão), pairou um silêncio confuso pela sala, uma vez que a canção “Amar pelos Dois” tinha sido anunciada nos ecrãs. Nesse silêncio, pude apreciar e verdadeiramente emocionar-me com uma interpretação brilhante.

Aos primeiros acordes de “Amar pelos Dois”, a voz do cantor foi inteiramente abafada por gritos do público, aplausos pouco ou nada criteriosos e por um coro que cantou desafinadamente a canção na versão eurovisiva (bem diferente da versão que Salvador estava a tentar produzir ao piano). Acredito que as condições em casa fossem diferentes, mas quem estava na Meo Arena não ouvia Salvador Sobral. Um cantor como ele, de jazz, a quem cada interpretação resulta diferente da anterior, necessita de silêncio, de concentração, e os seus apreciadores agradecem que se faça silêncio para degustar em pormenor a interpretação.

Nada disso foi possível fazer-se. No final de cada verso, Salvador era aplaudido fortemente por espectadores que nem sequer o estavam a ouvir. Só por ele ser Salvador, o vencedor da Eurovisão. E o cantor, e bem, disse a verdade: aquele público, que antes o ignorava, aplaude agora qualquer coisa que ele faça, e para colocar tal situação a ridículo deu o exemplo de um peido. E tinha tanta razão que todo aquele público, não percebendo que ele o estava a criticar, tornou a aplaudir e ainda com mais força.

Não importa, na verdade, que haja hoje gente ofendida. Salvador Sobral não precisa de um público que não percebe o que ele quis dizer. Salvador Sobral precisa, quer e merece que esta loucura tipicamente pop termine de boicotar a entrega ao vivo da sua arte. Os ofendidos não precisam de ir aos seus concertos. A sua arte é, na verdade, tão maravilhosa, pura e sublime que é para ser apreciada em silêncio. Peidos teriam sido mais respeitosos do que aquele lamentável ruído na Meo Arena.

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