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Mas afinal o facebook é o quê?

Mas afinal o facebook é o quê?

Há já alguns anos que tenho uma conta activa no facebook. Com o tempo, senti necessidade de perceber o que é de facto esta plataforma e que tipo de sujeito sou na rede social, tendo em conta que parecia haver uma certa tendência dos outros pensarem que me conheciam através do que eu partilhava, ou seja, acreditavam que “eu era a mensagem” e não uma pessoa real. Também eu cometia o erro de imaginar que os meus interlocutores estavam do outro lado, à espera das minhas publicações, dispostos a prestar-lhes alguma atenção. Como se eu os tivesse convidado a entrar na minha casa, para conversarmos na sala, à volta de uma mesa disposta com um saboroso lanche – chá, torradas, biscoitos, compota de framboesa, talvez para aconchegar o espírito. E depois eram essas ou outras visitas que me convidavam a entrar na sua casa. Mudamos de mural ou de cronologia e transforma-se a “sala”. O “lanche” não tem o mesmo proveito. É um flash. Entramos e saímos da casa das pessoas, atravessando as portas sem as abrir, e sem pedir licença. Magia.

Se é uma “rede social”, a seguinte questão central faz todo o sentido: o que se aprofunda na relação entre os “amigos” virtuais? As questões secundárias alargam a minha perplexidade: o que podemos então levar a sério e aceitar como verdadeiro? Os “gostos”? Os “comentários”? A possibilidade de alguém nos “ler” e não intervir, permanecendo incógnita? Reformulo a questão principal: o que tem realmente valor no cenário virtual? Adianto como hipótese: apenas a comunicação entre pessoas que se conhecem na vida real terá alguma importância e validade, por podermos acrescentar à mensagem virtual outros dados e informações decorrentes do convívio presencial. Só com esses a frontalidade pública fará sentido e terá consequências, tirando cada um o proveito que muito bem entender, nem que seja passar ao lado sem se manifestar.

Na verdade, aqui vale o tudo ou o nada, o disparatado, o pedagógico, o chocante, o consolador, o medíocre, o belo: gato, sangue, céu azul, desabafo, pôr-do-sol, notícia, sorriso, receita, pássaro, aforismo, mar, desabafo, rosto, poema, publicidade, flor, luta, banalidade, corpo, negócio, arte – vaidade, talento, ingenuidade, estupidez. Há uma liberdade (de expressão) que todos podem usar a seu favor e de acordo com a vontade e gosto pessoais. A forma como utilizamos a rede também é um exercício de cidadania, ao olharmos, ouvirmos e reflectirmos.

Mas também sei que há uma inocência que não nos é permitida. Este solitário jogo é uma conversa de circunstância com aquelas pessoas que entram no coração de uma qualquer sala. Entram e saem. Chá frio, torrada queimada, biscoitos duros, compota de framboesa com grunhos. As mensagens que nos passam pelos olhos são como lâmpadas intermitentes das memórias afectadas pelo esquecimento. Isto e aquilo. Ligar e desligar. Aquela mesa facebookiana é um instrumento de coordenação da falta de conteúdo. Dispõe os utensílios do diálogo com uma absoluta determinação da sua manifesta necessidade, mas falha frequentemente o alvo, por ser apenas uma frágil sintomatologia da indiferença. Não bebo nem como nada. O jejum facebookiano pode ser terapêutico para o meu equilíbrio emocional e intelectual.

“O tempo está bom e ontem também esteve”. Escrevo isto ou qualquer coisa do género. Partilho aquilo nem sei com quem. Depois calo-me. Espero. O clima (o tema) é uma ideia tumultuosa para a minha disposição mental. “O tempo não está bom”, queria dizer. Céu muito nublado com poucas ou nenhumas abertas, assim é a minha meteorologia interior. Mas quem é que quer saber o que eu sinto ou o que eu penso?! Permaneço invisível e as visitas virtuais vão-se embora sem se despedirem. Convicta explicitação de desapego.

E assim é esta paisagem socio-virtual à qual damos tanta ou nenhuma importância: um longo desfile de gente ausente das nossas vidas.

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Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

Comentários

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    • Sim, concordo consigo, é um universo volátil e na maior parte das intervenções, difícil de entender. Podemos sempre optar por não fazer parte dele, mas ainda não cheguei a esse nível de saturação, além de que uso a minha conta para o meu trabalho, e nesse caso, é bastante útil.

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