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Mas afinal como se faz um leitor?

Créditos da imagem: Site oficial da Edidora Corraini, detentora dos direitos editoriais dos Pré-Livros de Bruno Munari

Quando pensamos nas relações entre miúdos e graúdos no seio da família, ainda encontramos, infelizmente, muitos casos de “alucinação amorosa” dos pais pelos filhos. Pais e mães escrupulosamente cuidadosos mas ineficazes no que diz respeito ao desenvolvimento da criatividade e do livre arbítrio dos seus filhos. Como educadora de infância e juiz social tenho visto muitos devaneios e até negligências. Ser mãe de três filhas e avó de três netos completa este sentido observador que possuo em relação à evolução das características da infância ao longo do tempo e da própria educação que lhe é destinada. É uma das minhas responsabilidades enquanto cidadã. Por isso, não me empolgo muito com o “último” estudo bombástico que surge, é necessário que o tempo (e outros estudos complementares e/ou longitudinais) validem essas conclusões tão “interessantes”.

Mas gostei de ler o artigo de Catarina Homem Marques no Observador, de 7 de julho de 2017, o qual considero de referência para quem se interessa pela educação das crianças pequenas – pais, educadores, animadores (in observador.pt), pois aprofunda alguns aspectos que os adultos, de um modo geral, desconhecem. Na verdade, muita gente que é pai e mãe ainda pensa que quando se tem um bebé é só atender às necessidades básicas de sobrevivência ligadas à higiene e alimentação, e fotografá-lo para partilhar as fotos e os vídeos nas redes sociais! Fazer um (bom) leitor é similar a fazer um espectador de teatro ou apreciador de arte em museus. O principal é pôr as crianças em contacto com a coisa que se lê, que se assiste, que se observa, desde muito cedo, naturalmente.

A ser verdade que todos os textos servem o propósito de formar leitores (como educadora de infância não sigo essa estratégia de forma linear e sem filtros), também é certo que lermos a lista telefónica com falinhas mansas e/ou melosas não dá assim tanto prazer ao leitor-emissor propriamente dito. Há outras vias mais interessantes: ler poesia, por exemplo, pois há bons poetas que escreveram e escrevem para crianças. Mas cuidado com o Plano Nacional de Leitura! Há por lá muita porcaria! Por outro lado, na primeira infância, o livro-objecto não serve apenas para ser lido, mas essencialmente para ser visto e manuseado. Os “Pré-Livros” ou livros ilegíveis propostos por Bruno Munari nos anos 80 são um excelente exemplo: livros de imagens, sem texto, para estimular a criatividade das crianças por via da curiosidade, ou seja, ensinar a pensar. Esse trabalho deve ser feito pela criança, sem grande intervenção do adulto, para se sentir “competente” no uso que faz desse “pré-livro” (não sabe ler, mas sabe retirar a informação possível, útil para ela naquele momento).

“Ler para entreter” é um bom slogan para a infância, mas cuidado. Entretenimento e cultura não são a mesma coisa, nem para os adultos nem para as crianças, e haverá um momento certo para proporcionar à criança pequena a distinção entre os dois modos de percepção do mundo. Cultura para bebés? Sim, mas isso é outra discussão. Contudo, e voltando à leitura, podemos fazer bons e maus leitores, dependendo de uma multiplicidade de variáveis. E esqueçam os tablets na primeira infância, por favor, são mais perniciosos do que benéficos! Livros, sim, muitos livros, mesmo que o bebé lhes atribua outra função no uso que deles faz, como atirar ao ar, morder, abrir e fechar, e porque não, esquecer? Em liberdade, num ambiente sereno e natural.

Adília César

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Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

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