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Manual para a comunicação virtual dos desajeitados

Créditos da imagem: Blogue "Centralita Telefónica antigua"

O mundo virtual invadiu o espaço social e relacional. Há alguns anos, era normal conhecer outras pessoas de modo mais ou menos acidental: na fila do supermercado, na sala de espera do médico, na discoteca. A atracção entre duas pessoas podia acontecer ao longo de vários encontros, ou até mesmo de modo súbito, mas era sempre em presença, olhos nos olhos. Agora, as pessoas parecem sentir-se mais à vontade tentando a sua sorte através das redes sociais e queimando todas as etapas afectivas para tentarem chegar muito rapidamente à intimidade, como por exemplo, recorrendo a investidas desajeitadas, como a utilização do mensenger, das mensagens privadas do facebook ou dos telefonemas tipo “marcação cerrada”. Na verdade, estas abordagens podem ser muito desinteressantes e desagradáveis para quem está do outro lado… Ou não, porque também há quem se queira aproveitar da solidão alheia, para possíveis situações amorosas sem consequências.

Em jeito de paródia (não é, portanto, para ser levado a sério) deixo aqui disponível um pequeno e irónico manual para homens desajeitados, com um brinde no final: um pequeno-grande conselho para não se esquecerem que as pessoas não são tablets, computadores ou smartphones – ainda são pessoas – e que o convívio real é o mais compensador a nível da amizade e do amor. Imaginemos então uma grande Central Telefónica dinamizadora de um serviço de encontros:

–  Ligou para o Serviço Comunicação Fix!

(se entretanto perdeu a coragem) Prima Tecla 0

Se ainda quer estabelecer comunicação: Tecla 1 (para lhe atribuir um nome próprio)

Se pretende saber como ela está e como lhe correu o dia, saber o que vai jantar, se já estendeu a roupa ou se já viu a notícia de última hora: Tecla 2

Para perguntar onde é que ela está neste preciso momento : Tecla 3 (deixe mensagem de voz a qual será automaticamente apagada ao fim de 5 segundos)

Para desabafar sobre as ex(s): Tecla 4 (a sua chamada será reencaminhada para o psicólogo disponível)

Para marcar um encontro que depois não se concretiza: Tecla 5 (serviço indisponível de momento, por favor ligue mais tarde)

Para adjectivar de “querida”, “fofa” ou “amor” a desconhecida com quem pretende estabelecer comunicação : Tecla 6 (por favor organize-se, todas as mulheres têm um nome próprio e gostam de ser chamadas por ele. Relembre o nome que acabou de lhe atribuir quando premiu a tecla 1)

Para a convidar para tomar um café: Tecla 7 (traje casual chic e cuidado com os primeiros comentários, pois ela já sabe que é linda, não é preciso estar sempre a dizer a mesma coisa)

Para a convidar para jantar: Tecla 8 (jantar automaticamente marcado para as 20 horas. Por favor ligue o GPS, para recepção do nome do restaurante e respectivo itinerário. Traje a rigor e cartão de crédito)

Para se remeter ao silêncio repentino: Tecla 9 (se esta é uma atitude frequente, aconselho-o a não se dar ao trabalho de iniciar a comunicação, para não ser penalizado com uma taxa adicional)

Se pretende estabelecer comunicação com desconhecidas de modo adequado, por favor esqueça o Serviço Comunicação Fix! e aguarde a gravação final, ouvindo-a com muita atenção:

“a tecla 10 não existe, bem como a utilização deste serviço, apesar de parecer aliciante, é absolutamente ridículo. Vá dar um passeio e seja receptivo a encontros acidentais”.

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Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

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