in

Ligados pelo Inconsciente

LIGADOS PELO INCONSCIENTE

** ou como as patologias infantis são, muitas vezes, patologias do não vivido familiar **

Cada corrente da Psicologia tem a sua visão acerca do desenvolvimento da psique na infância. Para Jung, existe uma relação de identidade entre o inconsciente dos pais e o inconsciente dos filhos. Relação esta que pode estar na origem do desenvolvimento menos saudável deste psiquismo com o aparecimento de neuroses, doenças físicas ou até alguns traços de comportamento desviante.

Ao longo dos meus quase 14 anos de experiência, trabalhei 60% deste tempo com crianças, em colégios, instituições, escolas, etc. Destas crianças que acompanhei, quase 100% dos seus sintomas eram sintomas de problemas na dinâmica familiar. Nem todas vinham de famílias disfuncionais, muitas delas estavam inseridas em famílias estruturadas mas a vida não vivida dos progenitores, as discussões, a falta de tempo contribuíram para a disfunção. Em quase todos estes casos, acabei por acompanhar os pais e não as crianças. Resolvendo os problemas dos cuidadores, o sintoma na criança desaparecia. O sintoma na infância é quase sempre um grito de ajuda para corrigir uma dinâmica que, por algum motivo, não funciona.

Como dizia Jung (1972), “Procura-se às vezes uma causa orgânica para alguma perturbação e não se sabe que se deveria procurá-la em outro lugar”. Este outro lugar é precisamente a família, as dinâmicas conjugais dos pais e este Inconsciente partilhado com o Mundo da criança. “A criança faz de tal modo parte da atmosfera psíquica dos pais que as dificuldades ocultas aí existentes e não resolvidas podem influir consideravelmente na saúde dela” (Jung, 1972).

Jung não acreditava que o psiquismo da criança fosse uma tábua rasa, existindo já um Inconsciente conectado ao dos pais, fundamento do que mais tarde se formará como Ego e irá proteger a psique. A criança faz então o seu percurso do Inconsciente para a formação de um Consciente. As primeiras impressões do meio ambiental e familiar que a rodeiam serão então as mais fortes e são do domínio do Inconsciente.

A Psicologia Analítica vê esta comunicação Inconsciente como não estando limitada pelo tempo, espaço e matéria. Jung refere numa das suas cartas “foi Einstein quem primeiro me levou a pensar sobre uma possível relatividade tanto do tempo quanto do espaço, a sua condicionalidade psíquica”. Assim, as impressões que surgem nos primeiros anos de vida da criança tornam-se rapidamente naquilo que irá formar o Inconsciente Pessoal de cada pessoa e o símbolo torna-se a linguagem privilegiada da criança que expressa a sua dor psiquica através de bloqueios na aprendizagem, doenças físicas, agressividade, etc. Quando a criança não se sente amada, percebe que provocando acidentes e magoando-se obtem o carinho e o cuidado que queria ter. Rapidamente a criança percebe que quando não está bem, os seus pais se unem em torno dela. As possíveis desuniões e disfunções cessam temporariamente entre o casal quando juntos têm de procurar ajudar a criança. Se o adulto não procura terapia, começarão a aparecer nas suas crianças as falhas que ele próprio não integrou. “o não dito torna-se maldito”. Quanto menos os pais quiserem falar e trabalhar os seus problemas, mais os seus filhos carregarão às costas um não vivido inconsciente que causará danos para sempre.

À medida que a criança vai crescendo, a influência que o Inconsciente dos pais tem sobre ela diminui. Quanto mais próximo da idade adulta, mais o sujeito bloqueia esta influência e se defende conscientemente dela. No entanto, quantos de nós não fazem Hoje terapia por causa do que passaram nesta primeira fase da vida? Pais felizes, filhos saudáveis.

Também gostaria de publicar o seu artigo de opinião no nosso site? Clique aqui.

Vote nesta opinião

Publicado por Tatiana A. Santos

Psicóloga Clínica e da Saúde - Psicoterapeuta Analítica - E-mail: [email protected] | Telefone: 962835950

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Hoje são todos Psicólogos, mesmo os que não tem formação