Hoje, vamos falar de mim! Quando o Pânico é o Eco de um Passado em Ruínas

A vida transforma-nos no que somos. Os anos moldam-nos, tornando-nos pessoas distantes daquilo que um dia deveríamos ter sido ou daquilo a que estávamos formatados para ser. Chamamos-lhes escolhas…

Mas há marcas que ficam para sempre. Comigo ficou algo a que, enquanto psicóloga, chamo de “Síndrome de pânico”. Um síndrome pesado, caracterizado por crises agudas e desregulação do sistema nervoso, que não se constitui num fenômeno isolado. Trata-se de uma manifestação somática de traumas de desenvolvimento, decorrentes de um contexto familiar disfuncional e adverso que me acompanhou durante toda a infância.

O desenvolvimento sob a influência de uma mãe com traços narcísicos, cuja invalidação emocional constante me levou a adotar um falso self, exemplifica esse processo. Nesses casos, o reprimir das minhas necessidades para me tornar uma extensão da figura materna inviabilizou a formação de um apego seguro. Simultaneamente, a presença de esquizofrenia e de alcoolismo paternos transformou o ambiente doméstico num espaço de imprevisibilidade e medo, onde televisões voavam, portas eram partidas aos murros e os corpos pequenos e fraqgeis dos filhos um saco de boxe constante. Na ausência de um adulto capaz de oferecer regulação emocional, o sistema nervoso tende a desenvolver um estado crônico de hiperexcitação. Sob exposição contínua a níveis tóxicos de stresse, o eixo HPA (Hipotálamo-Pituitária-Adrenal) permanece ativado e o corpo converte-se num repositório físico do trauma.

Anos após a exposição a um ambiente adverso como este, qualquer estímulo aparentemente inofensivo pode desencadear uma resposta de alarme intensa. A crise de pânico constitui, nesse contexto, uma reexperiência somática do perigo vivenciado na infância. Sintomas como taquicardia e falta de ar não se limitam a manifestações fisiológicas, mas também funcionam como memórias implícitas do terror infantil.

Diante desse quadro, a intervenção terapêutica não deve restringir-se ao controlo dos sintomas. A remissão do pânico representa a consolidação de um apego seguro internalizado e a elaboração do luto pela infância perdida. Só desta forma, a crise deixa de ser um fenômeno inexplicável e passa a constituir uma oportunidade para a reconstrução identitária e para a reparação profunda.

Eu tratei de mim, e tu? O que esperas?

Scroll to Top