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Fizeram do natal um tempo de consumismo, em vez de se aproveitar a família e a harmonia

Venham. Sentem-se. Na mesa da consoada. Esta, onde já não sento ninguém. Feliz Natal. Feliz? Porquê? Fizeram do Natal um tempo de consumismo.

1. Uma memória do que o Natal era

Quando eu era pequenina, nesta mesma mesa de pinho sentavam-se nove pessoas. Os meus pais, os pais do meu pai, a mãe da minha mãe, os meus três irmãos e eu. Éramos, por norma, nove à mesa. E, se não o éramos, significava que o tio, o primo ou o amigo de alguém tinha entrado pela porta, carregando meia dúzia de agradecimentos e aceitando a bênção harmoniosa do calor dos abraços da minha família.

Isto era o Natal. O Natal era a mesa. Essa onde se sentavam as pessoas. Sem que importassem as delícias que a ornamentavam ou a troca de presentes que se dava depois de soarem as badaladas. Naquele tempo, não havia prendas de Natal “de todos e para todos”. Havia uma norma estipulada entre os adultos: a de retirar um pequeno papelinho com o nome da pessoa que deveriam agradar com um pequeno mimo. E era mesmo um mimo pequenino, sob a forma de bombons ou de garrafas de vinho que, uma vez oferecidas, se abriam e partilhavam, como se fossem um presente para todos. Era mais valiosa a partilha do que o presente. Calhava-me a mim, que era criança, outra sorte: a de receber dois ou três presentes, dos quais quase todos eram utilidades. E lembro-me de me sentir satisfeita se as meias eram laranja e tinham uma boneca. Porque era um sinal claro. De que a família me amava. O suficiente para saber que eu gostava de laranja… e de bonecas.

No final da noite, não havia mais do que uma eufórica sensação de conforto. Esse que era harmonia, no seio familiar. O conforto das “barbas” puxadas do avô. O conforto do abraço quente dos meus pais. O conforto das cantorias desafinadas da minha irmã mais velha. E das piadas. E dos risos. E do sono atirado para o esquecimento em frente a jogos de tabuleiro, frente ao presépio. E a sensação de prazenteiro embalo quando os idosos contavam as histórias que começavam com o típico “Eu ainda sou do tempo”. Recordavam-se outros Natais. E não eram memórias estranhas. Porque o Natal tinha sido – e ainda era, na minha infância – tempo de aproveitar a família e a harmonia.

 2. Natal: um tempo de consumismo

Hoje, convido. Venham. Sentem-se. Na mesa da consoada. Esta, onde já não sento ninguém. Não sento ninguém porque os meus avós morreram e os meus pais moram longe. Não sento ninguém porque os meus irmãos estão no estrangeiro e a filha da minha irmã se recusa a vir para uma casa sem Internet por uma noite, preferindo manter-se no quarto até ser hora de abrir as consolas e telemóveis novos que lhe ofertam todos os anos.

Vá, venham. Sentem-se. A mesa, posta a preceito, levou a toalha cara que me enviaram por correio no Natal passado. E as velas que a ornamentam são já as prendas que desembrulhei em Novembro por me parecer ridículo esperar até ao dia 25 de Dezembro. Enviam-me cedo as prendas, não vá eu esquecer-me de comprar as deles. São um lembrete que grita o alerta: já ligaram, nas ruas, os LEDs de Natal. Já tocam, nos centros comerciais, as músicas cuja letra se ignora por medo do confronto poético com uma realidade de paz, amor e família que já não existe.

Fizeram do Natal um tempo de consumismo. No refúgio do meu lar deserto, tudo são prendas. E sento, no lugar dos meus avós, a televisão de 32 polegadas. E sento, no lugar dos meus irmãos, a chave do carro novo. E sento, no lugar dos meus pais, a memória do tempo em que o Natal – um tempo de consumismo – era um tempo de partilha. Senta-se comigo a saudade.

 3. (Feliz?) Natal!

Fico por casa. Lá fora, as pessoas não passam de meios de transporte para os sacos. Lá fora, as pessoas não passam de autómatos que entregam dinheiro e recebem bugigangas. E que rasgam papel e se apaixonam pela bugiganga, orgulhosamente ignorando o gesto. E que se incomodam se a capa do seu novo tablet é azul-turquesa em vez de azul índigo.

Fizeram do Natal um tempo de consumismo. E fizeram das pessoas bem de consumo. E fizeram do consumo um menino Jesus renascido, já não numa manjedoura mas num centro comercial, entre o símbolo da Coca-Cola e a publicidade rotativa dos queijos e dos perfumes.

Teve sorte, o menino Jesus da História, que recebeu visitas com presentes. Fizeram do Natal um tempo de consumismo. Eu recebo presentes mas não recebo visitas. Por isso, venham. Sentem-se. Na mesa da consoada. Esta, onde já não sento ninguém.

Feliz Natal. Mas feliz porquê?

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