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Fios, conexões e virtualidades – A World Wide Web

Fios, conexões e virtualidades – A World Wide Web

A primeira vez que decidi utilizar um computador foi um pouco antes do ano de 2000 e estava a finalizar o Curso de Estudos Superiores Especializados em Educação Artística na Universidade do Algarve. Até então, escrevia os meus trabalhos académicos à máquina. E de um dia para o outro vi-me a braços com um computador portátil e nenhuns conhecimentos sobre tecnologias de informação e comunicação. Através da metodologia de tentativa e erro, aliada à insistência e perseverança, lá fui adquirindo as competências básicas necessárias para desafiar as potencialidades daquele meu novo brinquedo. Sim, parti do princípio que aquele objecto era um “brinquedo”, ou quanto muito uma máquina de escrever que permitia apagar os erros e os enganos sem ser necessário dactilografar outra vez a mesma página. Mas a grande revolução tecnológica pessoal veio com a ligação à internet (que eu ainda hoje não percebo muito bem como funciona…): sítios (sites), correios electrónicos (emails), blogues, páginas, redes sociais, etc. – ou seja, estar “em linha” (estar online) tornou-se uma nova forma de estarmos ligados aos outros, essa enorme comunidade humana mundial.

A internet, podendo ser divertida e utilitária, trouxe-me novas ideias sobre o espaço e o tempo, as relações humanas, o conceito de eu e as minhas percepções de moralidade. Em meu socorro veio a obra de David Weinberger, que em 2002 escreveu Pequenos Pedaços Frouxamente Unidos: Uma Teoria Unificada da Rede. A tese básica de Weinberger é muito interessante, quando ele afirma que a maneira como nos compreendemos a nós próprios e aos outros no seio da Rede pode ser, em alguns aspectos, uma experiência mais autêntica do que o chamado mundo real, ao serem removidas certos estrangulamentos do espaço e do tempo e que as conexões entre as pessoas se tornam o factor mais fundamental do mundo subjectivo. Assim, a Rede é uma metáfora mais ajustada à forma como as nossas mentes geralmente funcionam. É bem verdade que quando estamos ligados virtualmente aos outros podemos adoptar personalidades, disfarces, ou seja, pode ser tentador tornarmo-nos “outras pessoas” diferentes daquela que habitualmente somos; ou então deixamos cair certas camadas psicológicas e emocionais, o que permitirá sentirmo-nos mais livres para exprimirmos os nossos “verdadeiros eus”. Todo este processo vai ajudar-nos a construir as nossas personalidades, tão necessárias às nossas vidas quotidianas.

A filosofia estabelece claramente uma distinção entre o mundo objectivo do facto em si e o mundo subjectivo daquilo que pensamos sobre o mesmo facto. Hoje, sabemos que os nossos mundos subjectivos são construídos em larga medida pelas escolhas que fazemos. O que “entra” então nesses mundos imaginários? Através da internet, escolhemos as nossas fontes de informação – o que procurar, onde “ir”, com quem falar e sobre que assunto; criamos conscientemente o nosso mundo “em linha” (online), a nossa realidade privada. A Rede dá-nos novas formas de construir o eu e de percebermos como se constrói um eu na relação estabelecida com os outros; permite-nos voltar atrás as vezes necessárias e repetir todo o processo psicanalítico, adoptando diferenças subtis de comunicação mais adaptadas às nossas necessidades pontuais.

Na verdade, a internet trouxe-nos novas formas de compreensão sobre o que é ser-se humano e ao contrário do que habitualmente se pensa não une o mundo numa grande “aldeia virtual”, antes pelo contrário: a Rede é uma fragmentação intencional desse mundo, um milhão de pequenas aldeias onde pessoas com ideias e apetências semelhantes se misturam, enriquecendo, por vontade própria, os seus mundos subjectivos e imaginários.

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Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

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