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Espaço não público da Literatura

Espaço não público da Literatura

A propósito do conceito de “espaço público”, que José Gil caracteriza como “espaço aberto de expressão e de trocas, essencial para que a liberdade e a criação circulem num campo social”, tenho vindo a reflectir com outras pessoas sobre o espaço público da literatura. A conclusão a que se chega é a de que o que existe é um “espaço não público da literatura” (utilizando o conceito de José Gil), tendo em conta os seguintes aspectos:

– toda a populaça que escreve é “excelente escritor” ou “grande” poeta;

– prémios literários com critérios que passaram da observação da qualidade da obra aos meandros do compadrio;

– prémios literários subsidiados pelos próprios candidatos;

– prémios literários que premeiam os autores que dão prestígio ao próprio prémio;

– críticas literárias sobre os amigos que se comportam “bem” e são “acessíveis”, silenciando outros porque incomodam e são inconvenientes;

– festivais literários “internacionais” com colaboradores de qualidade intermitente: bons (poucos), assim assim (alguns), maus e péssimos (muitos);

– publicações pagas por inúmeros pseudo-autores, sem validação de qualquer espécie, que vão desde livros em papel a e-books;

– bajulação de intervenientes com algum poder de decisão e intervenção;

– e exclusão de promotores da cultura que lutam por princípios de elevação de obras, autores, em suma, da arte.

É esta última circunstância a que mais me choca, porque ignora o óbvio: a Literatura não é “isto” que me rodeia, é outra coisa que apenas alguns escritores e leitores alcançam, é a possibilidade de iluminar e ser iluminado.

A este respeito, escreve José Gil: (…) “não há espaço público porque este está nas mãos de umas quantas pessoas cujo discurso não faz mal do que alimentar a inércia e o fechamento sobre si próprios da estrutura das relações de força que elas representam. Os lugares, tempos, dispositivos mediáticos e pessoas formam um pequeno sistema estático que trabalha afanosamente para a sua manutenção” (…) No que diz respeito à arte, “as pessoas vão às exposições e aos espectáculos, «gostaram» ou «não gostaram», e voltam para casa, ou seja, para as suas preocupações. (…) A literatura não entrou no espaço público, porque não há espaço literário que exista por si. Não há uma comunidade literária como não há uma comunidade artística ou científica ou filosófica. Há nomes, há mediatização de alguns desses nomes, há a grande preocupação de ser reconhecido no estrangeiro e, sobretudo, de transportar para Portugal o reconhecimento internacional” (…) O espaço público, no sentido em que empregamos esta expressão algo inadequada, não é o lugar da «opinião pública» nem de manifestações colectivas, políticas ou outras. Mais mesmo do que um espaço de comunicação, é um lugar de transformação anónima dos objectos individuais de expressão. É a palavra «público» que não convém: porque esse espaço de transformações contém zonas de sombra, pontos imperceptíveis de ligações de forças, linhas invisíveis que traçam trajectos de energia. Esse espaço «público», sendo aberto, não se expõe necessariamente à luz.” (in Portugal, hoje – O medo de existir (2005), José Gil, pp. 25-28)

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Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

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