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E se existisse um Ministério da Criança?

“A criança é constantemente atormentada pelos adultos com a pergunta:

– Que é que vais ser quando fores grande?

Bem corajosa seria aquela que olhasse o adulto de frente e lhe respondesse:

– Não vou ser nada, já sou.”

(In A Criança Apressada, D.Elkind, 1990)

Chegados a este ponto, estamos perante um problema – os direitos das crianças. De acordo com a organização da nossa sociedade, são os adultos que tomam todas as decisões relativas à vida dos mais jovens.

Gareth Mathews, um filósofo americano, elabora uma questão interessante: «será que uma criança é suficientemente racional ou racional de modo certo para que seja capaz de ser autodeterminante?»

Pouco se sabe sobre este assunto, mas também é verdade que desde Rousseau, no século XVIII, os direitos das crianças têm vindo a ganhar importância no valor, na amplitude e na abrangência. Pouco a pouco tem sido dada uma maior autonomia à criança, dentro dos sistemas legais, sendo provável que elas venham a exercer essa autonomia com uma idade cada vez menor. Que repercussões terão essas mudanças na estrutura da sociedade onde coexistem adultos e crianças?

Em 1974, John Holt escrevia: «proponho que os direitos, privilégios, deveres e responsabilidades dos cidadãos adultos sejam disponibilizados para qualquer jovem, independentemente da idade, que queira fazer uso deles.» Controverso, não? Para já, o que interessa realçar é que o direito de decisão que as crianças detêm sobre si próprias é directamente proporcional ao que os adultos julgam que as crianças são capazes de decidir, de actuar e de ajuizar sobre os seus próprios actos. Na verdade, as ideias das crianças são diferentes das ideias dos adultos, mas não têm um valor ético-filosófico inferior. As crianças precisam de ser aceites e respeitadas por aquilo que são e por aquilo que podem vir a ser, sem atitudes condescendentes ou sentimentalistas por parte dos adultos.

Deixo-vos uma proposta do grande homem e pedagogo Arquimedes da Silva Santos (n.1921) formulada em 1989, para reflexão: «seria pedir muito se fossem desviados dos orçamentos dos eufemísticos chamados ministérios da defesa, para defesa da infância, um décimo somente dos gastos que fazem, fomentando em todos os países o Ministério da Criança?»

Que eu tenha conhecimento, ainda ninguém lhe respondeu.

Adília César

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Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

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