in

Do “vinagre” dos insubmissos ao “mel” dos acomodados.

Do "vinagre" dos insubmissos ao "mel" dos acomodados.

A propósito daquela que foi a minha situação profissional na Assembleia Distrital de Lisboa (ADL) nos últimos dois anos antes da extinção dos seus Serviços de Cultura (sobre os quais já aqui escrevi vários textos, nomeadamente acerca do seu Arquivo, da Biblioteca, do Setor Editorial e vários sobre as polémicas questões patrimoniais) partilhei nas redes sociais um texto intitulado «Do “vinagre” dos insubmissos ao “mel” dos acomodados» em março de 2015 a propósito do comentário de um amigo que num encontro de café, se me dirigiu, com um sorriso irónico nos lábios, e despejou o seguinte ditado: “não se apanham moscas com vinagre”.

É esse desabafo de então que hoje resolvi repescar, adaptando-o, pois gostaria de trocar umas ideias sobre o medo de enfrentar os poderosos e as formas de se lhes resistir.

À pergunta sobre o que pretendia ele dizer (esse tal amigo), respondeu-me apenas: “estás mal porque queres!” (à época estava com vários salários em atraso e na perspetiva de assim continuar: cheguei até aos 12 meses).

Insisti em mais explicações e a muito custo ele lá acrescentou: “colhes o que semeaste, quem te manda andar por aí a fazer denúncias? Ainda se fossem anónimas…”

Embora já calculasse a que se referia, fingi-me desentendida e pedi que se explicasse melhor. Já um pouco agastado retorquiu: “caramba será que não entendes mesmo? Ou estás a fazer-te de parva? Então tu dizes mal do homem e queres que ele te dê emprego e pague o salário?”

E com esta arrumou, em definitivo, a conversa. Deixei-o seguir o seu caminho e continuei a beber o meu café…

Aquelas palavras serviram, sobretudo, para eu perceber que mais vale estar só do que ter amigos destes que consideram a submissão um valor mais alto do que a dignidade. E pessoas que preferem estar ao lado dos poderosos por temor para mim são cobardes e nada mais.

Mas antes de voltar ao “vinagre” (que, supostamente, uso) ou ao “mel” (que, na opinião do meu “amigo”, deveria usar) há que esclarecer que eu não andava a pedir a ninguém que me desse emprego. Era funcionária da ADL desde 1987, desempenhei funções como diretora dos Serviços de Cultura entre 2004 e 2014, e receber o salário no final do mês era um direito que me assistia, não uma opção discricionária de um qualquer político.

E é bom que se tenha a noção de que se entre 2013 e 2015 a minha entidade empregadora não cumpriu os deveres a que estava obrigada para comigo, em particular o pagar-me atempadamente a remuneração, isso deveu-se, em exclusivo, ao comportamento ilegal e de má-fé da Câmara Municipal de Lisboa (CML) que se recusou a cumprir a lei, por ordem expressa do Dr. António Costa (sem pronúncia dos órgãos autárquicos do município), e a partir de janeiro de 2012 deixou de pagar as contribuições que lhe cabiam nos termos do artigo 14.º do Decreto-Lei n.º 5/91, de 8 de janeiro, e que o artigo 9.º da Lei n.º 36/2014, de 26 de junho, mandou regularizar.

Vamos agora, então, àquilo que o meu “amigo” diz ser o “vinagre” com que tempero as minhas intervenções: as denúncias públicas que fiz sobre a situação da Assembleia Distrital com identificação nominal dos responsáveis.

E não se trata apenas da referência ao calote da CML que é responsabilidade do seu Presidente mas, também, das mentiras utilizadas pela vereadora Graça Fonseca (em quem o Dr. António Costa terá delegado o “problema” da Assembleia Distrital) e pelo Secretário-geral da CML, Alberto Guimarães, para justificar as posições da autarquia, até às suspeitas infundadas levantadas pela Arq.ª Helena Roseta e pelo Eng.º Hugo Pereira nas reuniões da ADL em que participaram em representação do município de Lisboa. [a este propósito veja-se o que já aqui também partilhei convosco]

Por que razão é “vinagre” aquilo que eu digo (e tudo o que afirmo é provado) e os atos contrários à lei e em desrespeito dos mais elementares princípios constitucionalmente consagrados, apenas porque praticadas por aqueles que citei, o não são?

Por que razão devo (devia) “oferecer mel” (o meu silêncio e o meu respeito) a quem me confiscou direitos e não mostrava ter qualquer consideração pela minha dignidade enquanto trabalhadora?

Por que razão devia aceitar o que me estavam a fazer como se fosse uma fatalidade e ficar submissa perante as humilhações sofridas?

No seguinte ao da conversa com aquele alegado amigo voltei a encontrá-lo. Com a mesma desfaçatez de sempre, aproximou-se sorridente e rematou: “Bom dia! Já vi que a nossa conversa te deixou nervosa.”

Devo ter-lhe saído na rifa pois apesar do meu silêncio insistiu: “Se não tivesses transformado o problema numa questão político partidária talvez até te dessem razão e o problema já estivesse resolvido. Deixa de citar o Costa. Deixa de acusar a câmara de Lisboa. Deixa de envolver o PS na confusão. Sê mais humilde e pode ser que brevemente te resolvam a situação.” E foi-se embora.

António Costa não podia ser citado por quê? Acaso não foi ele que decidiu, a título pessoal, à margem da lei e à revelia dos órgãos autárquicos do município, que a CML ia deixar de pagar à ADL? Será porventura mentira que a CML tem uma dívida para com a ADL e que dessa situação resultou a falência da entidade? [O caricato da situação é que transferida a universalidade jurídica da ADL para o Estado o Ministro das Finanças Mário Centeno acabou pondo a CML em tribunal para que esta pague o que deixou em dívida, e eu sou testemunha no processo]

Obviamente não segui os seus “conselhos”. Fazê-lo seria perder toda a dignidade.

A minha voz pode até ser insignificante quando comparada com a influência deles. A minha caminhada pode ter sido solitária enquanto eles tinham uma corte que os protegia.

Mas não! Não podia deixar que o medo de perder o emprego (ir para a “requalificação” é isso mesmo) ou de nunca mais recuperar os meus salários em atraso vencesse.

Não me resignei e muito nem me calei. Fui ouvida na Assembleia da República (em comissão e pelos grupos parlamentares), escrevi no meu blogue, fiz denúncias nas redes socias. Só consegui ultrapassar essas dificuldades devido ao apoio incondicional da minha família. Mas não desisti. Nunca!

Em finais de 2015, finalmente fez-se justiça! Recuperei na íntegra os meus 12 vencimentos em atraso (e ainda os dois subsídios em falta: um de Natal e outro de férias) e embora tenha passado pela requalificação fui colocada num departamento da Administração Central onde já consolidei a mobilidade.

Também gostaria de publicar o seu artigo de opinião no nosso site? Clique aqui.

Vote nesta opinião

0 pontos
Upvote Downvote

Total votes: 0

Upvotes: 0

Upvotes percentage: 0.000000%

Downvotes: 0

Downvotes percentage: 0.000000%

Publicado por Ermelinda Toscano

Nasci na Trafaria em 1959 e resido em Cacilhas desde 2000. Licenciada em Geografia e Planeamento Regional, com pós-graduação em Gestão Autárquica. Trabalhei numa entidade autárquica supramunicipal de 1987 a 2015, tendo exercido o cargo de Diretora dos Serviços de Cultura de 2004 a 2014. Desde 2015 integro a Unidade de Fundos Estruturais da Direção-Geral das Autarquias Locais. Fui autarca na Assembleia de Freguesia de Cacilhas entre 2005 e 2010 e na Assembleia Municipal de Almada de 2009 a 2010. Pertenci aos corpos gerentes da SCALA – Sociedade Cultural de Artes e Letras de Almada durante vários mandatos sucessivos e sou Secretária da Direção da Associação de Cidadania de Cacilhas – O FAROL desde 2008. Concebi o projeto cultural “Café com Letras” em Almada (2003 a 2006) e coordenei a associação informal “Poetas Almadenses” (2006 a 2014).

Membro VerificadoMembro Autor

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Loading…

COMENTE ESTA OPINIÃO!

A Mercedes (Daimler AG) oferece 320.000 € a Partidos

A Mercedes (Daimler AG) oferece 320.000 € a Partidos

A Rádio Está a Morrer