in

Da crítica literária à perplexidade do leitor

Da crítica literária à perplexidade do leitor

Ultimamente deparo-me com algumas críticas literárias a obras que vão sendo publicadas, as quais me deixam, no mínimo, perplexa e que me têm levado a pensar, mas afinal o que é a crítica literária e que competências deve ter um crítico?

Vai longe o tempo da lucidez de António Sérgio, quando se esforçou por implementar um novo panorama para a crítica literária em Portugal, nos princípios do século XX. Outras circunstâncias mereceram destaque, pela agitação intelectual provocada: a “Renascença Portuguesa”, a revista “A Águia”, o “Inquérito à Vida Literária Portuguesa” por Boavida Portugal, as manifestações do Grupo Orpheu, diversos ensaios sobre o homem “português”, como os estudos de José Leite de Vasconcelos, “A Arte de ser Português” de Teixeira de Pascoaes e “Porque me orgulho de ser Português” de Albino Forjaz de Sampaio. E ainda os críticos: Fidelino de Figueiredo, o primeiro historiador da crítica literária em Portugal, primeiro crítico da crítica portuguesa e primeiro propugnador de uma “crítica científica” e o poeta Fernando Pessoa, que iniciou a sua carreira como crítico, além de Hernâni Cidade e Carolina Michaëlis. Pode-se dizer que estes homens instauraram a crítica rigorosa e profissional. Mais tarde, outros nomes mereceram destaque: David Mourão Ferreira, Jorge de Sena, Mário Sacramento, Óscar Lopes, Eduardo Lourenço, Vergílio Ferreira. Nos anos 60, era urgente a discussão de métodos e teorias e a divulgação de nomes importantes da crítica literária, tendo surgido entretanto o incontornável Eduardo Prado Coelho. Longe vai esse tempo.

Hoje em dia, muitos estudiosos se debruçam sobre as obras literárias, como historiadores, ensaístas, professores, filólogos, sociólogos, psicólogos, psicanalistas, arqueólogos, eruditos e curiosos. Mas não são críticos literários. De uma forma talvez demasiado simplista, o crítico literário deve preocupar-se com as características literárias da obra, tem de ir além da leitura distraída do leitor leigo, que apenas quer usufruir da obra. O crítico tem outra responsabilidade.

E chego então à minha perplexidade. Como leitora que deseja apreciar uma obra literária e como eventual escritora que pretende aprender a partir dos outros (bons) escritores, é natural que procure nos jornais e revistas de referência e até na imprensa regional, as críticas literárias a obras que vão saindo e que eu vou lendo. E a decepção é grande. Críticas que são meras opiniões, por vezes em linguagem poética, mais ou menos bem escritas, com extensas transcrições dos próprios textos e que não acrescentam nada ao valor literário, à “voz” que as ditas obras possam evidenciar. É que se não tivermos a ajuda urgente e rigorosa de bons críticos literários, qualquer dia já nem sabemos o que é a literatura.)

(Os dados históricos fui buscá-los a Arnaldo Saraiva, num belo e rigoroso texto escrito em 1971, intitulado “A crítica literária e a crítica literária em Portugal”, o qual recomendo vivamente.)

Também gostaria de publicar o seu artigo de opinião no nosso site? Clique aqui.

Vote nesta opinião

1 ponto
Upvote Downvote

Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Loading…

0

COMENTE ESTA OPINIÃO!

Biblioteca abandonada em Lisboa. Ou como a política matou a cultura!

Biblioteca abandonada em Lisboa. Ou como a política matou a cultura!

Hoje destrói-se pelos fungos o que antes ia para a fogueira!?!

Hoje destrói-se pelos fungos o que antes ia para a fogueira!?!