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Considerações sobre o Teatro para a Infância

Créditos da imagem: Pequena Sereia, Teatro Politeama, M/3

Num espectáculo teatral, a criança é exposta a uma complexidade de estímulos visuais, sonoros, linguísticos, gestuais e plásticos, onde cada um desses estímulos possui determinado sistema de códigos que é distinto de uns para os outros, provocando um prazer essencialmente sensorial. Num bom espectáculo, é notório o forte envolvimento e a mobilização perceptiva por parte das crianças. De facto, o teatro para a infância poderá ser tudo aquilo que os adultos quiserem, mas nem sempre tem sido o que as crianças precisam ou merecem.

Não existindo receitas para um bom teatro, é sempre possível reflectir sobre ideias-chave, que nos permitem instaurar algumas concepções sobre teatro dito de qualidade. A primeira tem a ver com os equívocos do teatro para a infância, que partem do princípio (errado!) de que é um teatro infantilizado: lições de moral, intenções didácticas, finais felizes, humor grosseiro, diálogos pobres, gritarias e correrias em palco, excesso de efeitos especiais, participação forçada dos espectadores. A segunda ideia-chave tem a ver com a possibilidade de conexão entre tudo o que acontece em cena e aquilo que uma criança é: fantasia, brilho, poesia, cor, simplicidade, movimento, música, silêncio, metáfora, jogo, descoberta, o sensível e a magia. Assim, os objectivos do teatro para a infância deverão ter em linha de conta os objectivos gerais para a formação integral e global das crianças, sem esquecer o desenvolvimento das capacidades criativas inerentes ao pensamento divergente, sendo que a participação real da criança num espectáculo, no sentido do imaginário, passa pela percepção intuitiva, e não forçosamente intelectual, do ritmo que o actor lhe propõe. Este ritmo, complexo, não é analisado pela criança, mas é percepcionado ao nível de todo o corpo.

Tendo em conta as características das crianças, os seus modos de recepção face ao espectáculo teatral são diferentes dos modos de recepção dos adultos. “Ir ao teatro” não é uma escolha da criança pequena, pois ela vai assistir a espectáculos levada pelo adulto, uma vez que não tem autonomia para ir sozinha. Assim, à partida, a sua motivação é diferente da motivação dos adultos. Uma boa representação teatral manifesta-se na participação das crianças, participação que pode ir desde o silêncio prolongado até à mais intensa excitação. Assim, a criança reage a um ou outro aspecto que mais lhe chama a atenção, tendo alguma dificuldade em permanecer atenta durante um longo período. O sucesso de um espectáculo teatral poderá ter a ver com a qualidade das imagens, com o ritmo da cena e com os elementos surpresa que vai possuindo, cuidadosamente articulados, de maneira a despertar a criança de corpo inteiro, a disponibilizá-la para a história, para as diferentes histórias em cena.

Os estádios de desenvolvimento da criança têm importância nos seus modos de recepção: entre os dois e os quatro/cinco anos, a percepção infantil correlaciona-se essencialmente com uma componente afectiva e o comportamento motor. A criança atenta toma consciência das acções em cena, mas percepciona-as de forma imediata e fragmentada, dando mais importância a alguns pormenores que selecciona como importantes, sem ainda ser capaz de interiorizar uma sucessão lógica das acções dos actores. Os sons, as cores e as formas em movimento parecem ser os elementos mais influentes na recepção das crianças num espectáculo teatral. Pouco a pouco, a criança vai adquirindo competências ao nível da racionalidade, da retrospecção, da análise, da síntese, do estabelecimento das relações objectivas, do espírito crítico, da compreensão dos símbolos e das abstracções inerentes ao espectáculo de teatro.

As trocas com o público são um factor a não negligenciar num espectáculo, o jogo assume-se como dimensão fundamental do teatro contemporâneo, contribuindo para tornar o espectáculo mais vivencial, tornando o teatro para a infância ainda mais exigente, pois este tem de estar estruturado de forma aberta, no sentido de integrar as manifestações expontâneas e activas das crianças espectadoras. O actor precisa, assim, de se estruturar a partir da maleabilidade, da flexibilidade corporal e mental, do rigor, de uma verdade profunda face à acção teatral. Será então necessário um trabalho específico no teatro para a infância, tendo em conta a especificidade do público “infantil”? O encenador C. Fragateiro contextualiza duas formas de articulação entre as companhias produtoras de teatro e as crianças: o “teatro de animação”, onde ainda existe uma certa autonomia do teatro em relação à escola, e o “jogo/espectáculo”, mais directamente ligado às questões da aprendizagem, com um carácter “utilitário” demasiado evidente. Na nossa modernidade existem mil e uma formas de expressão (ou ainda mais) para os escritores, para os actores, para os encenadores e nesta ordem de ideias. Haverá também mil e um modos de recepção do espectador (ou ainda mais), cada um com as suas leituras, compreensão e fruição estética? Mas pode limitar-se a criação da obra de arte, seja ao que for, como por exemplo, ao nível etário? Especificar é limitar? Esta questão da especificidade do espectáculo tendo em conta o nível etário, coloca-se principalmente quando contextualizamos o espectáculo teatral na escola, e assim, a partir do momento em que a criação teatral se aproxima da escola que “começa a surgir a necessidade de articular a sua produção com as etapas específicas da formação/aprendizagem, lançando dados, abrindo pistas, facilitando essa aprendizagem”.

O problema da recepção é amplo e complexo, pois abarca a obra teatral e o efeito da obra no espectador, implicando a cumplicidade deste. Assim, o primeiro critério a ter em conta é a definição da representação como um acto de comunicação com as crianças. À partida, temos uma especificidade relacionada com os problemas comunicativos que as crianças, enquanto destinatários da cena teatral, têm para resolver, e que são, sem dúvida, diferentes dos adultos. De facto, a criança vivencia a sua realidade transfigurando-a com a sua imaginação, e portanto, capta essa realidade de um modo específico, diferente do adulto. A criança não é um destinatário passivo da representação, é precisamente o contrário – um agente activo na construção da obra. Esta actividade produtiva relaciona-se amplamente com as estruturas imagéticas da criança, que concretiza no preenchimento dos espaços vazios, dos silêncios, criados como tal pela representação aberta e polissémica, ou seja, através de um exercício estético motivado pela acção dramática. Neste processo de recepção, a criança activa metaconhecimentos, bem como convencionalismos próprios da expressividade artística do sistema, estabelecendo correlações entre diversos signos culturais, que são, como já se viu, próprios (específicos) das culturas da infância.

Quando se representa para crianças, deve-se ter em consideração o redimensionamento do papel do receptor. Mas, se o Teatro se expressa através da Arte, ele vai além do conhecimento científico e embrenha-se nos mistérios das sensações, das emoções, dos sentimentos, que é, como se sabe, o domínio da infância.

Adília César

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Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

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Créditos da imagem: site da organização portuguesa do Dia de Aulas ao Ar Livre

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