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Consciência de um incendiário

Então? Estás aí não é? De volta à tua vida?

Ao trabalho se é que o tens. À família se também a tiveres. Espero bem que não.

Ocultaste as provas num qualquer esconderijo ou, simplesmente, abandonaste-as num qualquer pinhal, agora reduzido a cinzas.

E voltaste para casa. Se é que a tens.

Ficas agora a assistir, com rejúbilo (sim, porque eu não peso ou não existo de todo), ao teu espetáculo de magia.

Magia negra.

Aí descansado. Afinal não te reconhecem, não te culpam e a pena (se aplicada), tal como eu, não te pesará muito nos ombros.

Mas, por aí, há muitos que os têm doridos.

Os ombros e a alma.

De “tentar” apaziguar as tuas brincadeiras, os teus “trabalhinhos sujos”, as tuas vinganças (servidas demasiadamente quentes) e de assistir, com pesar, à destruição, inclusivé, da própria vida.

Não são feitos de aço indestrutível, o seu sangue aquece rápido, e não há carne e osso que resistam a dignidades tão pouco limadas.

Não sabes a distinção entre os filmes e a realidade.

E sabes porquê?

Porque os bons atores dedicam-se ao seu trabalho. Dedicam-se a fazê-lo e bem. Mas, no final, o terror acaba em diversão. Já o teu é sempre sinónimo de devastação.

Devastação que se demora, que arrepia, exaspera, indigna.

Que perdura no tempo, quando o teu rastilho foi demasiado ágil.

A fugacidade do teu engenho dará lugar a décadas de assombro e memórias eternas de um antes que não volta. Irremediavelmente. De uma infância perdida, de um pai que não voltará a ver o filho.

De balidos e latidos abafados. De cinza que fossiliza.

De um crematório a céu aberto. Inevitável e desarmante.

Mas soubeste escolher bem e nunca recuaste.

Afinal, as forças naturais, a seca e o vento foram um grande braço direito.

Sei que não és o único culpado. Que só o fazes porque te facilitam o trabalho. Que nem sempre o “prevenir é melhor que remediar” vence esta luta.

Mas isso não te retira a autoria e o desaforo. Não te traz aceitação nem condescendência. És e serás sempre desprezível. Tu e as tuas motivações, quaisquer que sejam.

E hoje, esta chuva que cai é uma bênção, uma purga para o ar que tu também respiras, um abraço que acalmará as últimas labaredas, uma alternativa ao teu “lavar de mãos”. Um rematar de algo que nem todas as lágrimas derramadas seriam capazes de extinguir.

Desejo que um dia sejas incendiado por um carcinogénico (que tão bem conheces). Assim ao de leve para que não lhe sintas o cheiro, silencioso, com imensa vontade de ficar, a flamejar aos poucos aí dentro e, simultaneamente, arrepiante. Que vá dilacerando cada pedaço de ti e do que foste e te retire a dignidade que não tinhas.

Que, no final, te brinde com um sufoco apertado e com a vista emocionada de quem, talvez, possa vir a sentir a falta da tua presença.

Como eu não existo, não tenho de me preocupar!

E assim termino. Ficam os retratos a preto, sem branco, do que outrora verdejava.? E uma réstia de vontade. De reerguer. Assim se espera.

(entidade e história fictícias, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência)

Agradeço a todos quantos deram de si para proteger todos os outros. Ainda vale a pena acreditar.

#17jun15out2017 #hopeforportugal

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Publicado por Fly Words

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