De acordo com especialistas, o enfrentamento do radicalismo requer intervenções que transcendam abordagens políticas, abordando fatores psicológicos e biológicos subjacentes por meio de terapias que promovam a regulação neural e a flexibilidade cognitiva. As autoras argumentam que a compreensão do extremismo depende da análise dos processos cerebrais relacionados à perceção de ameaças e incertezas. Uma análise recente que integra psicologia e neurociência sugere que a mentalidade extremista resulta de uma vulnerabilidade neuropsicológica, a qual, associada a crenças irracionais e pressões sociais, pode culminar no radicalismo.
“O que vemos numa mente extremista é muitas vezes um cérebro em desequilíbrio”, explica uma das psicólogas envolvidas no estudo. “De forma simplista, é como se o ‘alarme de perigo’ do cérebro – a amígdala – estivesse demasiado sensível, enquanto o ‘centro de controlo’ – o córtex pré-frontal, responsável pela razão e pela empatia – está com o volume baixo.” Segundo as especialistas, este desequilíbrio neurobiológico traduz-se em traços psicológicos bem específicos: uma perceção constante de ameaça e vitimização, pensamento a preto e branco, incapacidade de lidar com a ambiguidade e uma forte rejeição de quem é diferente.
A dinâmica psicológica do radicalismo é analisada à luz da Terapia Racional Emotiva-Comportamental (REBT), que descreve o desenvolvimento do extremismo a partir de crenças irracionais e inflexíveis, como a exigência de justiça absoluta ou a intolerância à incerteza. Quando confrontadas com a complexidade da realidade, essas crenças podem gerar frustração intensa, frequentemente convertida em hostilidade direcionada a grupos percebidos como adversários. O estado persistente de alerta e frustração favorece a aceitação de narrativas extremistas, que oferecem certezas absolutas, dicotomias simplificadas, senso de pertencimento e propósito, funcionando como uma resposta psicologicamente reconfortante, embora prejudicial, para indivíduos incapazes de lidar com a complexidade.
Segundo as autoras, programas tradicionais de desradicalização que se concentram exclusivamente no debate ideológico tendem a ser ineficazes ao desconsiderar mecanismos psicológicos subjacentes. Recomenda-se uma intervenção em três etapas: primeiramente, desafiar crenças inflexíveis por meio de técnicas de terapia cognitivo-comportamental, promovendo flexibilidade cognitiva; em seguida, treinar a regulação emocional com práticas como mindfulness, que auxiliam na redução da reatividade da amígdala e na gestão de emoções como medo e raiva; por fim, proporcionar alternativas de pertencimento social, facilitando a reintegração e a reconstrução identitária do indivíduo fora do contexto extremista.
“Compreender que o extremismo tem uma base neuropsicológica não é para o desculpabilizar, mas sim para o combater com mais eficácia”, concluem as especialistas. “Ao tratar as causas profundas na mente e no cérebro, podemos desenvolver estratégias de prevenção e recuperação que são, ao mesmo tempo, mais compassivas e mais eficazes a longo prazo.”
Maria Nascimento Cunha & Patrícia da Silva Martins desenvolvem funções na área do ensino e da investigação no Instituto Superior Miguel Torga (ISMT) – Coimbra.



