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Cenas Literárias

Cenas Literárias

A cena literária consiste numa série de movimentações e interesses que tem como principal preocupação garantir a vida dos livros. Do autor ao leitor, o processo de divulgação e defesa do livro é estruturado ao nível das desigualdades comerciais, impostas e a coberto do estatuto intelectual do autor. No entanto, ganham aqueles livros que nascem com a capa virada para o negócio.

São vários os agentes responsáveis que compõem uma cadeia literária. Cada um à sua maneira cumpre a parte que lhe cabe para que o objecto livro tenha o seu lugar no espaço público.

Escritores: As semelhanças e as diferenças entre eles não requerem muita reflexão e profundidade. Produzem as suas obras literárias consoante a capacidade intelectual que consideram hábil durante o acto de criação. Nem sempre este pormenor (a auto-consideração de que estão a criar uma obra literária importante) é um indicador consciente do sucesso que desejam alcançar. O maior perigo que podemos sentir em relação a um escritor surge do facto de a leitura do seu livro não corresponder em prazer ao sacrifício da sua produção. Mas isso é um risco subjectivo. Há escritores e leitores que convivem bem na mesma futilidade intelectual. Comercialmente, a excelência e qualidade literárias de uma obra vale o mesmo preço que um livro medíocre e frágil. Bons e maus escritores afinam pela mesma tabela. Ninguém se pode queixar. O injusto insucesso de que muitos autores sofrem, ou o contrário disso, é uma bala perdida entre os leitores.

Editores: tudo acontece e tudo acaba com eles. São o nascimento e a morte do livro. A avaliar por uma determinada espécie de editores, será injusto atribuirmos a má qualidade de uma obra ao seu autor. O fracasso dum livro tem parecenças com os critérios de quem o editou. Isto numa perspectiva de mediocridade, que é o que importa agora. Para evitar fracassos comerciais futuros, o editor desprende-se do impulso primordial que o levou a decidir-se pela edição da obra e abandona o autor às regras da qualidade discutíveis do mercado. Por outro lado, o sucesso duma obra editada reparte o prémio com a visão qualificada do editor por personalidades cuja imagem fora criada à margem dos cenários da literatura. Chama-se a isto colocar a ratoeira onde se sabe que o pássaro vai poisar. O editor defende esta prática como um objectivo de activação de contas, injecção comercial, ou ainda como um acto de autonomizar um serviço cultural à custa de autores economicamente vantajosos. Seja como for, temos desta forma um livro transformado em caixa registadora.

Críticos: peneiras intelectuais com vários graus de obsessão pelo livro recentemente editado. A principal ferramenta que utilizam na destrinça duma obra são os diversos filtros de exigência com os quais coam as palavras dos outros. Há os que se perdem em artifícios filosóficos no vácuo de obras tão leves quanto fúteis, como há os que ficam agarrados ao caroço da história porque o assunto do livro os puxa para a obscuridade da mensagem crítica. De um modo muito particular os críticos são a segunda consciência dos autores. Arriscam análises muitas vezes disparatadas, porque em literatura, venha o que vier, se o que é escrito não fizer sentido ao autor, fará sentido ao livro; se nem uma coisa nem outra, que seja o leitor também crítico do crítico.

Chegados a este ponto da situação importa fazer um breve balanço nesta cadeia literária: se o registo de nascimento de um livro é da responsabilidade do seu autor, o baptizo é obra do editor, cabendo ao crítico a extrema-unção, se for caso disso.

Leitores: os últimos elementos da cadeia para quem o objecto livro é destinado. Isto se em vez dum leitor o livro tenha a infelicidade de encontrar sossego na prateleira mais alta e mais escura numa livraria. Ignorar um livro é uma forma de decoração, isto é, um livro que não seja lido traz as suas vantagens decorativas. É outra forma de ler o livro apenas pela lombada. É certo que se a leitura não estivesse tão dependente do tempo interior do leitor, o livro cumpria mais eficazmente a sua função. Porque ler começa por ser um murmúrio visual. Um murmúrio que sobe de tom e se transforma em imagem e acontecimento – todos os sentidos do leitor num único coro, uma orquestra mental. Mas isso não é para todos. Muitos são os maestros da incapacidade literária e poucos os livros que soam bem.

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