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Carta sentida de um amigo para outro

“Não existe felicidade sem liberdade, nem liberdade sem coragem” (Péricles).

Ainda há umas horas estivemos juntos. O que já não acontecia há um tempo, pelas contingências desta vida e nestas suas circunstâncias. Por isso, foi ainda mais especial, ou não fosses tu – já de ti – especial. Ou melhor, não fossemos nós especiais um para o outro. E, efetivamente, um do outro, pelo que nos une. Pelo que sempre nos unirá! Até como elo praticável: ora inquebrantável ora infindável. E estivemos nesse dia do patrono dos jornalistas e escritores – dia muito peculiar para mim – e recordei-me que te publiquei, há uns anos, na primeira página duma edição de jornal que dirigi. E agora publico-te nesta crónica, em que te predico e ta dedico.

Escrevo-te seguido ao nosso reencontro, portanto, porque na altura fiquei inundado pelo silêncio prazeroso da tua presença. Não te consegui prestar umas palavras mais substanciais de coragem, de conforto, de conteúdos motivacionais. Para me sentires como um porto. Apenas concedi-te a minha companhia, acalentada de estima, de empatia. Mas não te esqueças: sem dar corpo às palavras, mesmo que nem sempre o faça, continuo a apoiar-te de corpo e alma. Apressei-me no acordar e levantar, logo na manhã seguinte a termos estado. Antecipei-me ao despertador, porque voavam na minha cabeça as palavras que te queria transmitir. Tinha necessidade de começar a escrever-te, de imediato, para fazê-las aterrar no papel e podê-las sentir. Não podia deixá-las só a fluir e, de novo, vê-las escapulir. Sinto que as palavras escritas me envolvem: vão e vêm. Trazem-me de volta. “Para o que der e vier”, no seu poder. Continuando…

Interrompi esta carta, por instantes. Pouco depois retomei, já no carro onde seguia e que copiloto me queria. E ao ouvir a fadista Mariza na rádio, com a sua lindíssima voz, a sua letra chamava por mim como que a desejar entrar veemente neste meu registo. E no teu destino. Pois ela quer em ti se deleitar, assentando como uma luva neste momento, sem vacilar. Querendo exaltar, positivo, o melhor de ti. E aí está ela:

“Hoje a semente que dorme na terra
E que se esconde no escuro que encerra
Amanhã nascerá uma flor
Ainda que a esperança da luz seja escassa
A chuva que molha e que passa
Vai trazer numa gota amor
Também eu estou à espera da luz
Deixo-me aqui onde a sombra seduz
Também eu estou à espera de mim
Algo me diz que a tormenta passará
É preciso perder para depois se ganhar
E mesmo sem ver, acreditar
É a vida que segue e não espera pela gente
Cada passo que dermos em frente
Caminhando sem medo de errar
Creio que a noite sempre se tornará dia
E o brilho que o sol irradia
Há-de sempre me iluminar
Quebro as algemas neste meu lamento
Se renasço a cada momento meu destino na vida é maior
Também eu vou em busca da luz
Saio daqui onde a sombra seduz
Também eu estou à espera de mim…”.

Meu querido amigo: estendi-te a mão, uma e outra vez, quando te abeiravas e entregavas a um caminho abismalmente desviante, mas não foi suficiente. Desculpa não te ter ajudado mais e melhor, a puxar-te determinantemente para não te perderes nesse fosso que te sugou. Não faz mal te perderes ou te sentires perdido, pois a crise existencial sempre toca no ser humano. Desorienta-o. Ainda mais para quem está verde, em tenra idade, sem grande experiência de vida, como tu. Vou continuar a puxar-te a mão. Sempre que precisares. Mas por que te deixaste sugar e abarrancar nessa escolha delirante? É muito difícil ver alguém desabar, como tu desabaste. Ainda por cima, alguém como tu, de bom fundo. De coração profundo. Por que, em boa hora, não desabafaste? Saberias que não perderias… Sei que a tua cruz é pesada, mas quero intuir que vais conseguir carregá-la. Rezando eu para que o seu jugo seja leve, seja breve, e o teu esforço suave. Como a braveza duma ave. Totalmente livre, sem prisões nem devaneios. Salta da escuridão: tens luz do outro lado. E triunfarás! Assim queira Deus. E tu, também. Pois só depende de ti, de mais ninguém! Estas palavras que de mim brotam como incentivo – oxalá tenham no teu interior o melhor cultivo – têm andado comigo, como fiel amigo, na última década. Elas acompanham-me no ensino – ano após ano e escola após escola –, quando me dirijo aos meus alunos e em determinados vídeo-mensagens e documentários que lhes passo. São lições de vida que nos inspiram, como essas de: #MahatmaGandhi, #NickVujicic, #KobeBryant, #Mindshift, #Believe, entre muitos outros. Não és, nem serás, meu aluno na escola oficial. Contudo, juntos, seremos sempre aprendizes nesta escola da vida! Por isso, permite em ti assimilar o que, contigo, estou a partilhar.

Só te peço que aguentes, que sejas forte, que não te voltes a iludir nem a cair. Muito menos, a ser amassado por outros contra a tua real vontade. Aproveita esta paragem particular que a vida te propõe, como uma paisagem. Pára e reflete. Dá, a ti mesmo, o tempo que precisas e sê tu mesmo! Reflete e torna a parar. Aí encontrarás, não apenas dentro de ti, a confiança. A serenidade. A segurança. Acredita em ti próprio! Mesmo quando estás triste. Ninguém mais te pode derrubar nem te coisificar. Ninguém! Só tu mesmo. Mas sei que os teus sonhos não passam por aí, longe disso. Aspirarás, doravante, mais alto. E sei que o desistir não insistirá no teu coexistir.

Aprende mais e mais, prepara-te. Descobre os teus talentos e aplica-os. Mesmo que não seja à primeira, à vigésima ou quadragésima terceira, eles singrarão treino após treino. Vencendo as dificuldades, quaisquer que sejam elas. A vida premeia esses audazes e protege-os, como couraça. Porque a sua fé é inabalável. Serás um deles e, com eles, alcançarás! Arrisca no que é certo, naquilo que te fará feliz. Honestamente feliz! Acredita e faz-nos acreditar! E não deixes de sonhar. Sobretudo, de amar. Em quem te ama, de verdade, e te quer sempre abraçar. Pelos braços dados – e interlaçados – com o bem, o bom e o belo. Força, querido amigo! Estou, estamos, contigo. Sempre contigo! Seja qual for o ninho. Recebe um abraço apertado, com carinho.

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Publicado por André Rubim Rangel

"Tripeiro" de gema: cidade e clube. Licenciado em Teologia, com um curso profissional de “Comunicação, Marketing e Assessoria de Imprensa” e mestre em Ciências da Comunicação – Jornalismo. Tenho, como ‘paixões’: a vida, a família e os amigos, os presépios, o ténis, as viagens, o roxo e o lilás, as entrevistas, a fotografia, a escrita, a leitura, o cinema, os U2, os doces e boa comida, etc..

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Adeus, Bruno. Finalmente, vou ver-te vestido de vermelho!