Imagine-se sentado tranquilamente numa esplanada, a saborear um café enquanto lê um livro ou simplesmente observa o mundo a girar. Agora imagine o empregado a aproximar-se, não para lhe perguntar se quer mais alguma coisa, mas para lhe lembrar que o tempo está a contar… e que já vai em 3 euros de estadia. Absurdo? Bem-vindo à nova realidade em algumas zonas de Espanha, onde certos cafés começaram a cobrar não pelo que se consome, mas pelo tempo que se ocupa a cadeira.
À primeira vista, a ideia parece saída de um sketch do Gato Fedorento. Mas a verdade é que existe lógica (comercial, pelo menos) por trás desta medida. Os donos de cafés alegam que muitos clientes ocupam as mesas durante horas a fio com um simples café ou uma garrafa de água, impedindo a rotatividade e reduzindo os lucros. Em zonas turísticas ou de grande afluência, cada minuto pode representar uma oportunidade perdida de negócio. E, sejamos honestos, quem nunca reparou naquele grupo que transforma uma esplanada num cowork gratuito durante uma tarde inteira?
Contudo, do outro lado da moeda está o valor simbólico e social de um café. Em Portugal, como em muitos países do sul da Europa, o café é mais do que uma bebida – é um ritual, uma pausa, um ponto de encontro. Cobrar pelo tempo de permanência pode transformar esse momento num cronómetro ansioso. Passamos a olhar para o relógio em vez de olhar para quem está à nossa frente.
E onde é que isto acaba? Vamos começar a pagar por cada pergunta ao empregado? “Desculpe, tem açúcar?” — mais 50 cêntimos. “Posso usar a casa de banho?” — só com suplemento. Já agora, alguém que diga aos espanhóis que em Portugal há cafés onde ainda nos oferecem um copo de água com o café e um sorriso sem custo adicional.
A medida poderá até fazer sentido num contexto muito específico — cafés com mesas reduzidas e alta procura, por exemplo — mas generalizá-la seria um erro de palmatória. O café, como símbolo de convivência, não pode ser cronometrado como se fosse estacionamento. Até porque, convenhamos, há clientes que valem mais pelo ambiente que criam do que pelos euros que gastam.
Conclusão com sabor a bica:
Se é para cobrar pelo tempo, que pelo menos nos deixem usar a tomada e o Wi-Fi à vontade. E que sirvam o café com um lembrete: está a pagar pelo tempo, mas o stress é oferta da casa.



