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Brincar para me salvar

Créditos da imagem: Seivan M. Salim/ AP

Brincar é o modo privilegiado de ser Criança. As crianças brincam para sociabilizarem e para se apropriarem do mundo que as rodeia. Em quaisquer circunstâncias de vida – humanas ou desumanas – as crianças são capazes de brincar.

Independentemente de qualquer teoria da infância que se escolha – e existe um leque variado de teorias bem fundamentadas – ao observarmos as brincadeiras das crianças, constatamos que durante o período correspondente à infância, a sua acção predominante é a actividade lúdica. Se considerarmos ainda o prazer que envolve a actividade lúdica e o extrapolarmos para alguns divertimentos e acções dos adultos, podemos ter em linha de conta, apenas como hipóteses, que brincar pode ser uma catarse, uma forma de minimizar tristezas e até de expulsar monstros e demónios? Então vejamos:

– brincar é uma actividade desinteressada, sem qualquer fim utilitário, que não seja o da acção em si;

– proporciona prazer a quem a pratica;

– brota espontaneamente, emergindo do mais profundo do ser psíquico, como pulsão com imperiosa necessidade de ser satisfeita, como instinto;

– produz envolvimento afectivo-emocional, delícia, paixão, êxtase, estados de exaltação;

– requer imaginação, invenção, criatividade, estando estritamente ligada ao novo, à inovação, ao original, ao inédito, ao fora do vulgar;

– dirige-se para algo espiritual, para algo que é bom, que satisfaz plenamente e ao qual se retorna, sempre que se pode.

Há inclusivamente autores que falam do jogo de faz-de-conta das crianças pequenas – a mais pura e genuína brincadeira – referindo-se a um instinto de jogo teatral como dado antropológico existente na actividade lúdica da criança, de qualquer criança, em qualquer ambiente, seja ele facilitador ou castrador.

De facto, em quaisquer circunstâncias de vida – humanas ou desumanas – as crianças são capazes de brincar. No caos da guerra, as crianças brincam em nome da sua sobrevivência emocional. No caos da desumanidade, as crianças brincam e constroem um refúgio dentro de si próprias, mais forte do que qualquer muro ou vedação, mais certeiro do que qualquer arma, como por exemplo, estas crianças refugiadas sírias que brincam num campo temporário em Irbil, no norte do Iraque.

Adília César

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Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

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