O número de crianças e adolescentes com sintomas de ansiedade, irritabilidade e tristeza está a aumentar de forma alarmante em Portugal. Especialistas em Psicologia e Pedopsiquiatria alertam para uma crise emocional silenciosa e sublinham a urgência de ensinar os mais novos a lidar com emoções como a ira, o medo, a culpa e a vergonha antes que estas se transformem em sofrimento psicológico prolongado.
Dados recentes mostram uma procura crescente por apoio psicológico e pedopsiquiátrico, um reflexo direto da pressão escolar, da instabilidade familiar e do uso excessivo das redes sociais. “As crianças estão mais ansiosas, com menos tolerância à frustração e dificuldade em identificar o que sentem”, relatam as especialistas na área.
Muitos jovens não dizem “estou triste” ou “tenho medo”, reagem com raiva, isolamento, comportamentos desafiadores e no limite autolesivos não suicidários. Esta é a forma que encontram de comunicar um mal-estar que ainda não sabem nomear. O desafio dos terapeutas é decifrar essas emoções escondidas e ensinar estratégias que ajudem na regulação emocional. O papel da família é também ele decisivo. Pais e cuidadores precisam de aprender a escutar, reconhecer sinais de sofrimento e reagir com empatia, em vez de castigos ou críticas.
Ter em conta as etapas do neurodesenvolvimento de cada criança é também fundamental; assim até aos 6 anos, no contexto do desenvolvimento rápido da amígdala e circuitos límbicos surgem as emoções básicas (alegria, medo, raiva), com posterior desenvolvimento a partir dos 2 anos do início da regulação emocional, com ajuda dos cuidadores, que funcionam como co-reguladores emocionais. Na fase da adolescência com a amigdala hiperreativa e o cortéx pré-frontal ainda imaturo as emoções são intensas e há procura constante da recompensa, apenas a atingindo-se a maturação dos circuitos pré-frontais na idade adulta com a regulação emocional mais estável.
O amadurecimento emocional depende da integração entre o sistema límbido (emocão) e o cortéx pré- frontal (razão), esta integração é moldada pela experiências afetivas precoces (vinculação segura), salientando-se que a presença de stress e experiências traumáticas, podem alterar o desenvolvimento da amígdala e hipocampo, bem como a aprendizagem social e cultural molda a neurotransmissão/integração entre sistema límbido e cortéx pré-frontal.
A desregulação emocional transdiagnóstica a um conjunto de entidades psicopatológicas como Ansiedade, Depressão, PHDA, entre outras, preconizam a necessidade de uma boa regulação emocional a partir dos 2 anos de idade, estando a regulação emocional dependente, até essa idade da co-regulação parental. Preconizam-se desta forma dinâmicas relacionais familiares contentoras, empáticas, funcionando como base segura.
As especialistas defendem também uma mudança estrutural nas escolas, com programas de educação emocional que ensinem as crianças a identificar sentimentos, desenvolver empatia e lidar com a frustração. Estudos mostram que alunos com maior inteligência emocional são mais resilientes e têm melhor desempenho académico e social.
A mensagem é clara, isto não é apenas comportamento, é saúde mental. Ignorar o que as crianças sentem é fechar os olhos a um problema que pode crescer com elas. Ensinar a compreender e a gerir emoções é, segundo as especialistas, um investimento na saúde emocional de toda uma geração.
Ilda Almeida Moreira, Psiquiatra da Infância e da Adolescência – ULSB e Maria Nascimento Cunha, Psicóloga – Instituto Superior Miguel Torga



