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Amadora: quintas seculares abandonadas. E o papel da autarquia?

Amadora: quintas seculares abandonadas. E o papel da autarquia?

O estado de degradação a que chegaram a Quinta de Santo Eloy (século XVIII) e a Quinta da Lage (século XVII), também conhecida por Casal da Lage, propriedades localizadas no concelho da Amadora, são a prova evidente da forma irresponsável como o Estado (com a conivência das autarquias) trata o seu património predial.

Resultado de uma gestão negligente feita pelo Governo Civil de Lisboa até 08-03-1991 (com o governador civil a exercer, em simultâneo, o cargo de presidente da Assembleia Distrital de Lisboa, proprietária destes bens prediais) e após essa data e até à sua extinção em 30-11-2011, através da Comissão de Assistência e Habitação Social.

Em 2013 a situação era chocante e a ruína de algumas dependências já tornara a recuperação destes imóveis um projeto inalcançável por ser demasiado oneroso.

A Quinta de Santo Eloy foi construída no século XVIII, mas ao longo da sua vetusta idade sofreu várias alterações tendo sido ampliada no início do século XX. Apresenta dois estilos arquitetónicos distintos: o pombalino e o barroco.

Possui (ou antes, possuía) vários painéis de frescos a encimar as portas da Sala de Jantar datados do início do século XIX que se encontram completamente destruídos embora se possam ainda observar vestígios dos mesmos. O Salão Nobre, com umas escadas que o ligam ao pátio e àquele que foi um frondoso jardim interior hoje inexistente, era todo decorado com estuques de traça neoclássica que ainda se conseguem observar apesar da destruição generalizada.

O seu valor histórico, artístico e cultural é inegável. Em 1994, chegou a ser apresentada na Câmara da Amadora uma proposta visando a sua classificação como património de interesse municipal que, todavia, por razões que se desconhece, nunca chegou a seguir em frente.

A Quinta (ou Casal) da Lage foi construída no século XVII (os primeiros registos datam de 1614) e era composta por casas de habitação, oficinas, adega, lagar, cavalariça, palheiro, celeiro e mais acomodações, azenha com duas rodas, casa de lagariça e casa para caseiro, pomar, vinha, olivedo, pereiras, terra de semeadura e dois poços.

[Consulte os álbuns a seguir indicados para verificar por si o que acabo de referir sobre a Quinta de Santo Eloy e a Quinta da Lage. E se pretender saber informação cadastral sobre estes bens prediais clique AQUI.]

Terminado o impasse acerca da titularidade destas propriedades com a transferência da Universalidade Jurídica da Assembleia Distrital de Lisboa para o Estado Português em 2015, chegamos a 2018 com ambas as quintas exatamente como antes: a degradar-se dia após dia perante a indiferença do seu atual proprietário.

E tal como antes o Governo Civil de Lisboa deixou que parte da Quinta da Lage fosse ocupada e transformada numa espécie de “rancho mexicano” e permitiu que nos terrenos da Quinta de Santo Eloy se instalassem várias barracas e currais de animais, qualquer dia algum empreiteiro deita abaixo as ruínas dos edifícios e constrói um condomínio fechado mesmo sem autorização tal como antes fizeram os ocupantes que cabei de referir.

E qual é o papel da autarquia da Amadora? Manterá a postura indiferente dos últimos trinta anos por quantos mais?

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Publicado por Ermelinda Toscano

Nasci na Trafaria em 1959 e resido em Cacilhas desde 2000. Licenciada em Geografia e Planeamento Regional, com pós-graduação em Gestão Autárquica. Trabalhei numa entidade autárquica supramunicipal de 1987 a 2015, tendo exercido o cargo de Diretora dos Serviços de Cultura de 2004 a 2014. Desde 2015 integro a Unidade de Fundos Estruturais da Direção-Geral das Autarquias Locais. Fui autarca na Assembleia de Freguesia de Cacilhas entre 2005 e 2010 e na Assembleia Municipal de Almada de 2009 a 2010. Pertenci aos corpos gerentes da SCALA – Sociedade Cultural de Artes e Letras de Almada durante vários mandatos sucessivos e sou Secretária da Direção da Associação de Cidadania de Cacilhas – O FAROL desde 2008. Concebi o projeto cultural “Café com Letras” em Almada (2003 a 2006) e coordenei a associação informal “Poetas Almadenses” (2006 a 2014).

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