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Água: uma força arrebatadora que ameaça escassear

“A água é a força condutora de toda a vida” (Leonardo da Vinci).

Que ótima maneira de começar esta crónica: recordando-nos deste princípio fundamental de toda a vida (entre os outros três elementos naturais básicos), que a orienta e que é a sua fonte e canal. E vida que funciona, para nós, como bilha refrescante. Como desaguadoiro, que nos sacia e mata a sede. E quem nos recorda é alguém que foi bem mais do que pintar a «Mona Lisa», entre outros famosos quadros e demais artes. Um pensador à frente do seu tempo. Por muitas que sejam as mensagens pedagógicas e perenes que circulem, quanto à necessidade vital de se poupar água, elas são efetivamente poucas. Olhando aos resultados e à consciência plural dos cidadãos no uso diário e no cuidado para com a água. Seja ela engarrafada, da torneira ou do poço. Não suceda o que expressou Thomas Fuller: “Enquanto o poço não seca, não sabemos dar valor à água”. Oxalá não cheguemos ao ponto de acabar com ela! Mesmo havendo quem morra nela e quem morra por ela…

Precisamos, novamente, de excelentes pensadores mais adiante deste tempo corrente – como foi Da Vinci na sua época – para nos ajudar a manter este bem precioso de sempre: a água. Para que ela nunca deixe de ser a “força condutora” da vida presente e da futura. Dada a extrema importância da água, ela merece esta minha crónica. Ela é tantas vezes notícia e, nem sempre, pelos melhores motivos. Ou por ‘tsunamis’ e fortes inundações, que destroem e devastam terras e populações. Assim tem sido em vários países em alturas de cheias, de intensas chuvadas. Assim foi no passado fim de semana, no nosso país. Sobretudo a Norte. A água provou, mais uma vez, ser determinantemente arrebatadora. E não é o somente no mar, nesse mundo profundo. Impressionante e ainda tão misterioso. Quantas paisagens lindíssimas e estupendamente encantadoras se espalham por vários cantos da Terra, graças à agua! São tantas e incontáveis. Quem não aprecia um pôr-do-sol sobranceiro e reflectido no mar? Ou uma cascata / queda de água poderosa? Ou um lago, seja dos cisnes ou não, que nos adentra pelos olhos de tamanha beleza? Ou um frondoso rio que une tantas cidades extraordinárias com majestosas pontes? Ou uma fonte, no seu fontanário requintado, que se ergue, acenda e projeta mais além? E mais, muito mais! Porque “a árvore que está ao pé de água corrente é mais fresca e dá melhores frutos” (Sta. Teresa de Ávila). Ao lado da água, sejamos essa árvore, sinal de sabedoria. Que cresce, pensa e floresce.

Para não esquecermos do valor essencial da água, chega-nos esta semana às telas cinematográficas um novo documentário. «Aquarela: Força da Natureza» é considerado um dos grandes filmes ambientais do momento. E o seu mote narra isso mesmo: “É o seu mundo, nós estamos apenas a viver nele”. Do realizador Victor Kossakovsky e filmado em 96 «frames»/segundo. Foi já aclamado no conceituado Festival de Veneza. Aqui, não é um ser humano o principal protagonista, mas a água. É como que um despertar, um alerta, um eclodir. Em que “os Humanos frágeis experimentam a vida e a morte, a alegria e o desespero diante de seu poder”. A água é todo um manancial e potencial. Mesmo nas suas significações simbólicas, dominando num trio temático – como: fonte de vida, meio de purificação e centro de regenerescência. Desde tradições mais antigas e em várias áreas sociais, inclusive nas religiões. Em todas elas a água é origem da criação; é uma virtude; é reintegração; é porta para a eternidade; é substancial de pureza, graça e fertilidade; é instrumento de rejuvenescimento; é matéria-prima e irmã do fogo. Mesmo quando se opõem. Mergulhemos em todas estas águas que nos inspiram, renovam e revitalizam a mente e o espírito.

Por fim, tenhamos em conta que, ainda há poucos meses, fomos assombrados com a notícia do risco elevado de escassez de água em Portugal. A par de outros 43 países, que esgotam cerca de 40% das suas reservas de água… Não estamos nos 17 primeiros e piores lugares, que usam pelo menos 80% das suas reservas de água anualmente. Mas o mal dos outros não justifica o nosso. Portugal não pode assobiar para o lado e não fazer nada em relação a isto. “Para bom entendedor meia palavra basta”, mas para quem não o é ou faz-se não ser, esclareça-se: risco de escassez de água é sinónimo de falta de subsistência e de ameaça à vida humana. Já para não referir a instabilidade económica que gerará. Ou tudo isto não importa? Alguns políticos preocupam-se agora, e com “a cabeça em água”, no seu posicionamento de lugar no Parlamento. Ou em receber mais nos «poucochinhos» que foram chamados a formar Governo, batendo recordes desde que somos Democracia. Tanto no todo como nos milhões anuais salariais para 70 cabeças. A Assembleia da República ainda não entrou em funções e já mete “água a potes”. Não aconteça o mesmo com a preservação da Água. Sem desperdícios. Sem “afogamentos” políticos. 

Não faltam medidas sustentáveis, amigas do Ambiente, e para todo e qualquer cidadão. Que não somente para os governos dos países em maior aflição. Eis algumas, a fim de se evitar a escassez global da água: gestão e redistribuição dos recursos. Cortar para metade o consumo doméstico (até porque em alguns concelhos, como o de Gondomar, a água vale ouro: é mais dispendiosa do que noutros municípios). Apostar em técnicas eficientes de regadio. Investir em infraestruturas mais ecológicas. Reutilizar águas residuais. Apliquem-se! Entre outras.

«É possível que a pureza da água se torne facultativa, se o homem adquirir uma imunidade conveniente a todos esses micro-organismos patogénicos que se propõem proliferar a despeito de toda a técnica despendida e de todas as campanhas desenvolvidas para os destruir. Resta uma última provocação: a água há-de tornar-se rara. Só nalgum lugar perdido da Irlanda as fadas se banharão com o orvalho, pequenos seres para quem uma tina se constitui num lírio selvagem» (Agustina Bessa-Luís).

Devolvamos à água o papel fundamental que tem em nós e na vida. E que bem o exprimiu K. Blixen: “A cura para qualquer coisa é a água salgada – suor, lágrimas ou o mar salgado”. Assim como ela nos salva, curando-nos de moléstias, salvemo-la também neste planeta que é de todos. Para todos. Hoje e sempre! Que a água, na sua plenitude, seja a boa estrela definida por F. de La Rochefoucauld: “dá tudo aos seus eleitos”.

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Publicado por André Rubim Rangel

Nascido em 1977, é "tripeiro" de gema: cidade e clube. É licenciado em Teologia (UCP), com um curso profissional de “Comunicação, Marketing e Assessoria de Imprensa” (AEP), mestre em Ciências da Comunicação – ramo Jornalismo (UFP).

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