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Agora é que é!

Hands with fists raised up vector poster, symbol of protest, revolution, line outline style

“Então meu, agora os fachos já passam em canais generalistas? Epá juro-te, se o Cunhal ressuscitasse e visse esta merda, morria outra vez”. Este foi um dos vários avisos que recebi de amigos no outro dia enquanto estava de forma descontraída e eloquente a ler um clássico da literatura anglo-saxónica (ou talvez estivesse apenas a estudar para Análise de Dados.

Uma pena, porque a porcaria da frequência era mais dif… Bom, vamos prosseguir) e me fez desviar atenções para o meio mais rápido de ser informado acerca do que passou na televisão há umas horas…

O Twitter, obviamente. Isso é deveras impressionante, uma vez que até há muito pouco tempo, essa rede social só existia no meu telemóvel para fazer pouco do Jefferson. Adiante. Lá, pude confirmar que no “Você na TV”, chamado comummente de “Programa do Goucha”, esteve presente ao lado de um cidadão de gola alta (como se isso já não fosse péssimo o suficiente, é aquele que entrevistou o sr. Zé no vídeo viral da “informação dramática”) o Mário Machado.

Lá estava ele, muito bem vestido e educado, sentado no programa da manhã da TVI. Felizmente não tenho por hábito assistir a esses programas, aliás, é mais fácil encontrarem-me um dia no Estádio da Luz com o propósito de ver o Benfica do que num dia de semana no sofá a ver o Você na TV ou uma coisa parecida noutro canal. E não estou a ser irónico.

Ora durante o tal programa, muito tempo foi dedicado a perguntar a pessoas anónimas “será que Portugal precisa de um novo Salazar?”, e debater no estúdio se Portugal precisava de um novo Salazar. Em suma, o senhor da gola alta disse que Mário Machado, “homem de ideias polémicas” (que é mais ou menos o mesmo que descrever o Binya como um “médio com garra”, ou Jack, o Estripador como alguém com uma concepção algo peculiar sobre o consentimento), tinha sido convidado pois importava ouvir as suas ideias.

Logo se gerou um coro de indignação, alguns contra a presença do Mário Machado, outros contra o programa, muitos contra os jornalistas, e ainda alguns contra a TVI. Claro que não gosto de ver pessoas a defender o Salazar, os meus amigos sabem disso. Mas uma coisa é ouvir alguns saudosismos e cidadãos a dizer “mas olha que ele ao menos (completar com um dos chavões repetidos até à exaustão)”, chateia-me mas pronto, também me chateia ter de ler os livros do meu curso em Inglês e eu faço-o.

Outra coisa bem diferente é ver alguém a fazer isso num canal generalista, especialmente quando essa pessoa é o Mário Machado. Eu senti-me algo desconfortável, mas imagino que um judeu ou um afro-descendente ficasse pior que isso ao ver a pessoa que tatuou suásticas e é contra a sua existência ali sentada, falando em direto para milhões de pessoas (vá, milhares, aquilo não é um vídeo do Wuant). No entanto este alarmismo de muita gente deve-se àquela sirene instalada na cabeça de tantos portugueses do “vêm aí os fascistas! Agora é que é!”, que se ativa facilmente e raramente se justifica.

Ao longo dos anos, têm surgido várias pessoas, partidos e movimentos, dentro e fora da política tradicional, que procuram difundir este tipo de discurso com o qual muitos se assustam. Às vezes parece que queremos à força ter um populista só porque lá fora os outros têm. Isso é muito português. Mas os nossos “populistas” não são pessoas perigosas, o Marinho e Pinto é talvez um dos bons exemplos do populismo “à portuguesa”, ou seja, algo que não devia existir mas existe, no entanto não nos incomoda. E diz umas boas frases para proferirmos no café entre a quarta mini e o segundo pires de tremoços.

Cá em Portugal os Mários Machados, os PNRs e afins existem há muitos anos, mas nunca tiveram grande sucesso. Mas porquê? Era precisamente aqui que eu queria chegar. As pessoas chamadas de “alt-right”, “democratas iliberais” e “populistas” nos outros países (aos quais os portugueses resolveram chamar “fachos” para simplificar) têm alguns pontos em comum. Falamos de Le Pen, de Salvini, de Orban, etc. Um desses pontos é o da emigração, da “crise de refugiados” e daquele mito da “islamização da Europa”.

Em Portugal, os muçulmanos são uma percentagem insignificante da população, seja qual for a zona do país em que vivemos. O número de refugiados acolhidos anualmente é residual em comparação com outros países europeus, e a maior parte da população oriunda do estrangeiro no nosso país é originária das ex-colónias, são pessoas que falam a nossa lingua e cuja cultura tem muitas semelhanças com a nossa. A tudo isto, alia-se o facto de sermos historicamente (e ainda hoje) um país de emigrantes, muitas vezes ilegais.

Esse não é, portanto, um tema “fraturante”. O segundo ponto, é a segurança. Compreender-se-ia se houvesse atentados terroristas e violência no nosso país como existe nos arredores de Londres e Paris, assim como na Bélgica ou em alguns países do norte da Europa, que muitos oportunistas utilizassem com sucesso o argumento da segurança para ganhar votos. Apesar de termos um “canal” de nome CMTV que procura falar da “insegurança” dos pobres portugueses no seu quotidiano 24 horas por dia, sete dias por semana (parando um pouco para falar do Sócrates, do Bruno de Carvalho, e da bola em geral), um programa chamado SOS 24 na TVI (ai, a TVI, sempre a TVI…) que procura mostrar as operações especiais da polícia (fazendo sempre de conta que não existe violência policial, claro) que muitas vezes consistem em “deter três jovens na Cova da Moura, que estavam a importunar a vizinhança com barulho e tinham haxixe nos bolsos”.

Um pequeno à parte: Eu acho que se um norte-americano ligar um dia o “SOS 24” e vir isto pensa imediatamente que devem existir uns 200 bairros piores que a Cova da Moura só em Lisboa. Alguns políticos dos partidos tradicionais também tentam falar da “falta de segurança” simplesmente para ganhar votos. E com isto tudo… Somos o quarto país mais pacífico do mundo. Aos que duvidarem peço que viagem num autocarro suburbano durante a noite até casa a mexer no telemóvel sentados no banco de trás todos os dias durante uma semana. Depois peço que façam o mesmo em França ou na Alemanha, a ver vamos como corre.

O terceiro ponto, é o apelo ao autoritarismo. Muita gente diz que as sociedades andam demasiado abertas, há “liberdades a mais” e normalmente acabam por, num exercício de nostalgia, dizer que “no tempo do Salazar não havia nada disto”. É precisamente aqui que pessoas como Mário Machado se tentam focar, no saudosismo. Dizem que a solução é esse tal regresso ao passado, numa altura em que a maior parte dos portugueses tem na sua cozinha o único Salazar que acham fazer falta de vez em quando. Há muita gente, mais do que possam imaginar, que dirá que Mário Machado diz coisas com que não discordam totalmente. Mas a maior parte é incapaz de chegar ao boletim de voto e saber que votou em quem defende as coisas que ele defende.

É preciso ter cuidado com os saudosismos, porque se recuarmos demasiado não tardará até ouvirmos que “isto era preciso é um D. Dinis em cada cidade” ou “queremos é um novo Viriato em cada monte” e por aí em diante. Muitas vezes o saudosismo surge como nostalgia do passado. O nosso cérebro apaga as coisas más e mantém as boas. Dando um exemplo prático, pessoas na casa dos 40 e 50 anos eram jovens no tempo do Cavaquismo. As pessoas irão lembrar-se, por isso, de coisas positivas durante esse período.

Estas pessoas podem nem ter saudades do Cavaco e do estado do país nessa altura, mas terão boas memórias devido ao facto de terem sido jovens durante esse período. Por estas e outras razões, discursos apelando ao ódio, ao medo, à intolerância e ao autoritarismo em Portugal não têm tido influência. Mas não se pode fechar os olhos e pensar que nunca vai acontecer porque nós somos muito superiores intelectualmente a todos os outros povos europeus e mundiais, que são habitualmente trogloditas cujo QI tem apenas dois dígitos. Há que ter cautela, mas sem alarmismos injustificados.

Dito isto, importa abordar um último aspeto: Será que, numa democracia, devemos aceitar essas ideias? Não. Mários Machados, PNRs e Andrés Venturas não devem poder representar cargos políticos nem espalhar a sua mensagem, deve ser proibido. “Ah, mas ó Daniel, já tás a ser muito contraditório. Vens dizer que “ah e tal, liberdade, democracia e o caraças” e quem tem ideias diferentes das tuas não pode falar. Além disso, não te esqueças que os comunas também defendem pessoas que coiso”. Muita gente é capaz de estar a dizer isto mentalmente. Mas pensemos então, devemos partir de um princípio de que deve haver tolerância, desde que não se interfira com a liberdade do próximo.

Ora, quando algum partido, seja ele de direita ou de esquerda, passa uma mensagem na qual atenta contra um indivíduo ou um grupo de cidadãos, vai interferir com a liberdade dos mesmos. Por exemplo, se um partido condena pessoas por terem uma cor de pele ou uma sexualidade diferente da que acham desejável, estão a atentar contra a liberdade de uma pessoa. Contra o que ela é, e acima de tudo contra um ser humano. Estão a afirmar que, se tiverem legitimidade para tal, prejudicarão um grupo de pessoas. Esse tipo de mensagem deve ser proibido de difundir e reprimido.

Quando o PCTP-MRPP espalha cartazes (penso que foi em 2011) a apelar em letras garrafais à “morte aos traidores” está a atentar contra a liberdade e a vida de um grupo de cidadãos, essa mensagem não foi reprimida. Assim como não é a que transmite o PNR. São, para mim, falhas a nível democrático.

Ideias? Podem ser as mais ridículas que vos ocorram, desde que se respeite a liberdade dos outros e não seja feito um apelo à opressão de pessoas. Os Partidos atualmente presentes no parlamento em Portugal passam, goste-se ou não deles, uma mensagem, um discurso, e programas eleitorais, que não procuram restringir a liberdade de ninguém, nem são contra a existência de outras pessoas pelo que elas são. Assim sendo, todos têm legitimidade para governar, se os portugueses assim decidirem.

Eu normalmente só escrevo sobre temas que estou farto de discutir (e o Sporting), por isso agora façam só um favor, a mim, a vocês próprios, ao país, e à sociedade em geral. Debatam ideias e projetos, não debatam Mários Machados. Resto de bom Domingo.

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