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Afinal éramos cegos e incapazes de apreciar a beleza da nossa liberdade

Quantas vezes disse mal de uma segunda-feira?! O despertador tocava. Desejava “só mais cinco minutos”. Arrastava-me da cama, a seguir a rotina de todos os dias, dos últimos anos. De chuva, de sol, do inverno ao verão. A viagem fazia-se para o trabalho. Mau humor matinal conjugado com início de mais uma semana. Chateava-me com o caos do trânsito. Protestava com o senhor que passava a passadeira sem tomar atenção. 

Entrar ao trabalho a uma segunda-feira é difícil. Conviver a uma segunda-feira de manhã irritava-me. 

Inevitavelmente o dia corria. A normalidade que já era habitual tornava nesta segunda-feira um dia igual aos outros. 

Almoçar a um restaurante novo ou ao mesmo de sempre? Ir às compras ou ir beber um café para pôr a conversa em dia? Ir para casa descansar ou ir visitar os avós? Ir passear ou ir ao cinema? As decisões de sempre, tomadas com a normalidade, todos os dias. 

E quantas vezes, quando o trabalho não corria tão bem ou só porque “estamos naqueles dias”, quantas vezes desejei estar sozinha? Chegar a casa e isolar-me do resto do mundo? Quantas vezes desejei ser só eu? 

Quantas vezes desejei uma segunda-feira igual a um sábado ou um domingo? 

Agora. Neste novo mundo que as circunstâncias nos ensina a viver, onde descobrimos que as coisas simples têm a sua importância e que mesmo em dias normais, e até chatos, afinal éramos felizes. 

E agora? 

Em tempo de guerra, em que somos postos à prova é que se vê a fibra de que somos feitos. 

Em tempo de desalento, de perder aquilo que era garantido, é que descobrimos que afinal éramos cegos e incapazes de perceber e apreciar a beleza das coisas que naturalmente fazemos, os gestos quotidianos a que não dávamos importância, mas que afinal simbolizavam a nossa existência e davam sentido à vida. 

Quando isto passar, e quando desejarmos mais cinco minutos de sono, deveremos conseguir refletir e perceber quando nos tiram a liberdade, tiram-nos o ser. Pode ser que isto sirva para perceber a força de ser livre. 

Aqui. O medo impera e as saudades apertam, teimam em aparecer. Não consigo fazer mais. Estou em casa. Por mim e por ti. Por todos aqueles que estão na linha da frente desta batalha. 

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Publicado por Margarida

Gosto de opinar sobre os mais diversos assuntos da atualidade. Este será o espaço onde darei o meu ponto de vista sobre o comportamento da sociedade.

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