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Acho que o RBU não me convém

Ontem, encontrei o Zeferino, aquele rapaz que, desde sempre, descuidou de ter amigos e, com o mesmo zelo, evitou inimizades para não comprometer hipotéticas incursões partidárias e que afinal acabou por ser consultor financeiro. Segundo me contou, certo dia _isto, dos dias certos, nunca falha_ quando estava a sair das aulas, alguém lhe ofereceu um emprego. Posto de monta, na área das finanças. O que até me intrigou, porque do que me lembrava enveredara pela Biologia… O certo é que deu por si sentado numa secretária de topo durante uns bons seis meses e, quando já cansado da secretária e do topo da mesma, começou a questionar a decisão de ter trocado os bancos da faculdade por uma cadeira giratória, não é que lhe propõem progredir na “carreira”! Neste ponto da conversa, tratou de despachar evocações, saltou as atualizações de estado e desatou, muito entusiasmado, a expor o esboço do projeto que, na sua extraordinária carreira, tinha entre mãos: um rendimento básico universal.

“Isso, ao certo, é o quê?” Perguntei-lhe a disfarçar a minha total ignorância em questões de consultadorias. “É dar a toda a gente, independentemente de quaisquer circunstâncias, um rendimento básico. É muito favorável para à progressão dos índices económicos” “Ah! E onde é que se vai buscar o dinheiro para pagar esse tal rendimento básico a toda a gente?” Interroguei, desta vez, seriamente interessada. “Aos impostos!” Respondeu. “Olha, olha, descontam uma exorbitância do meu parco ordenado para assegurar serviços de saúde, educação, segurança, a minha reforma e, agora, ainda me queres pôr a pagar esse tal rendimento básico!” Retruquei. “Não estás a perceber, tu também receberias…” “Como receberia? Vão tirar e voltar a dar?” Sem me esclarecer, despediu-se à pressa.

Enquanto o observava a desaparecer do meu raio de visão, ia matutando: “se do dinheiro dos impostos que, constantemente me avisam, mal chega para pagar hospitais, escolas, esquadras e reformas, ainda vão retirar rendimentos universais, que restará para continuar a garantir esses serviços? E se, por causa desse “rendimento básico universal”, deixar de haver hospitais públicos? Como faremos se adoecermos? Ah, já sei, com o tal “rendimento”, iremos àquela clinica privada que abriu no centro histórico. Espera lá, e se já o tivermos gasto? Sempre se disse que o “dinheiro em casa, não consente faltas”, não é? Bem, lá teríamos de arranjar um seguro de saúde. Aliás, talvez não fosse má ideia arranjar também um plano de poupança reforma! Só que, nesse caso, ficaríamos com gastos já muito avultados para caberem num orçamento normal, ou não? Hum! Não me parece lá grande ideia, a do tal esboço do projeto do Zeferino. Pagar cem, receber dez e ainda correr o risco de ficar sem sistema de saúde público, sem reforma…

Mas quem sou eu para questionar o virtuosismo de tal projeto? O consultor financeiro, eximiamente, extraído do meio da licenciatura em Biologia pelos “caça talentos” de uma consultora internacional, é ele. Não é? É, mas não me convence! Porque, quando a “esmola é grande”, tenho que perguntar: a troco de quê?

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