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A pobreza e os Sadio Manés deste planeta

“A pobreza é muito boa nos poemas, nas máximas e nos sermões, mas é muito má na vida prática” (Henry W. Beecher).

Por estes dias tem sido notícia, bastante positiva e partilhada, as declarações do futebolista senegalês Sadio Mané, de 27 anos. Pela sua atitude exemplar na gestão pessoal que faz do seu salário (atualmente, ao serviço do Liverpool). Sem ostentações, priva-se de bens luxuosos, aplicando o seu dinheiro na solidariedade com o seu povo, a sua terra. E já antes revelara que precisa de pouco para ser feliz. E a sua felicidade, para além de fazer tão bem aquilo que faz – jogar à bola entre os melhores –, é investir no desenvolvimento do país. Que nobre ideal, de rara autenticidade! Ele é rico, não só de dinheiro mas sobretudo de coração. Que mal isso tem? “Em vez de abolir os ricos, devemos abolir os pobres”, preocupação de Bernard Shaw. Que deve ser nossa, também. Todos nós, apesar de nos motivarmos e nos inspirarmos no Mané, podemos não ter as capacidades de dar como ele. Todavia, possamos dar algo, o essencial, tal como escreveu S. Leão Magno: “aqueles que são desiguais nas possibilidades de dar, sejam ao menos iguais no afeto do coração”. Ora nem mais!

Já foram reproduzidas, em vários meios, as palavras exímias deste jogador de Sédhiou. Elas deixam-nos encantados e crentes na esperança de um mundo melhor, com arautos de Bem, de Paz, de Mérito e Valor como Mané. Uma genuína realidade de humildade. Mas não resisto a ressalvar, aqui, parte delas pela importância sublime das mesmas. “Passei fome, tive de trabalhar no campo. (…) Agora, com o que ganho graças ao futebol, posso ajudar as outras pessoas. (…) Construí escolas, construí um estádio. Forneço roupa, sapatos, comida para pessoas que estão em situação de pobreza extrema. E dou 70 euros por mês a todas as pessoas de uma região muito pobre no Senegal, que contribuem para as economias familiares delas”, rematou. Eis uma força da natureza!

E como acredito, em tantas ‘coisas’ da vida, que nada é por acaso, esta exposição pública da sua intervenção coincide à volta do dia mundial do combate à pobreza e à exclusão social. Anualmente assinalado a 17 de outubro. E que se desdobra em iniciativas várias pelos países para fazer sentir que este não é nem nunca será o caminho. O da pobreza e da exclusão. Pior que a pobreza material é, mesmo, a pobreza interior / a pobreza espiritual. Contudo, “seja qual for o tipo de pobreza, ela não é a causa da imoralidade, mas o seu efeito” (Thomas Carlyle). Abordando de outra forma: de facto, “pobreza é ficar indiferente”! Expressão muito significativa de Liliana Pinto, coordenadora do Núcleo Distrital do Porto da EAPN Portugal.

A propósito, é de louvar e enaltecer o empreendedorismo social e o trabalho enriquecedor operado pela Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN). É uma aglutinadora de esforços e de sinergias, envolvendo diversos parceiros e encetando várias dinâmicas em rede, em osmose. E não somente sobre esta temática. Exemplo disso é a mais recente iniciativa, a decorrer no Grande Porto, entre 17 e 24 de outubro. A Semana “Pelo Combate à Pobreza e à Exclusão Social”, a fim de mobilizar e sensibilizar a sociedade portuguesa para estas problemáticas. Ambas são uma violência e violação aos Direitos Humanos. É nosso dever, de todos – em conjunto – e de cada um/a – individualmente –, tudo fazer para suprir tais situações desumanas. Que em nada dignificam a pessoa! E atolam-nos de pavor, saindo de nós um clamor, exigindo o devido labor. Ou como diria H. Lamennais: “o grito do pobre sobe até Deus, mas não chega aos ouvidos do homem”. Até quando? Ensurdecidos estamos!…

Outras são as organizações (inter)nacionais que se movem em torno desta causa e que merecem um destaque, a atenção e dedicação da sociedade civil. Tais como: UNICEF, Assistência Médica Internacional (AMI), Médicos Sem Fronteiras, Corações Com Coroa, Banco Alimentar Contra a Fome, Caritas, «OKI Europe» – «Save The Children», Amnistia Internacional, «Oikos», Cruz Vermelha, Animar, entre outras mais.

Importa recordar as conclusões de um estudo efetuado há duas décadas, precisamente pela EAPN, que continuam em parte órfãs de medidas. Tanto tempo passou e realidade se mantém. Isto é, constatava-se que, no domínio das políticas sociais, “é ao Estado que compete em 1.º lugar a responsabilidade pelos problemas sociais e pela integração dos mais desfavorecidos”. Nesse âmbito, a opinião geral é a de que para o Estado, nas sociedades contemporâneas, “é impossível continuar a assumir a execução das políticas, pelo que deverá delegar nas ONG de solidariedade social essa responsabilidade, dando-lhes meios para o fazer, já que os que disponibiliza atualmente são manifestamente insuficientes”. E sinal evidente disso, ao longo destes anos até hoje, é o aumento do limiar da pobreza em Portugal… Quanto mais nos países subdesenvolvidos!…

E quantos Sadio Manés temos neste planeta, para ainda nos fazerem acreditar? Tantos, como as estrelas, que não se podem contar. Firmes na sua generosidade global com os mais moribundos e necessitados. Nunca é demais recordar alguns desses astros filantrópicos: Cristiano Ronaldo, Roger Federer, Bill Gates, José Mujica, Isabel Allende, J. K. Rowling, Herb Alpert, Shakira, Beyoncé, John Legend, Rihanna, Ed Sheeran, Angelina Jolie, Mel Gibson, George Lucas, Jennifer Lopez, Leonardo DiCaprio, Taylor Swift, Orlando Bloom, Keanu Reeves, etc.. Muitos outros, menos mediáticos. E outros tantos que já faleceram. Mas que deixaram um legado de prosperidade para a humanidade, com as suas fundações e enormes doações.

Portanto, gente comovente e que sente, que encarna na prática o erradicar a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares. Este é o primeiro dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), fixados pela ONU em 2015. E que fazem parte da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

Oxalá a pobreza e a exclusão sejam tal qual a expressão da canção: “uma nuvem passageira, que com o vento se vai”. Não se pode tratar a pobreza com assistencialismos. Continuar a deixar os pobres na rua, dando-lhe apenas de comer uma ou outra vez. Não! Não deixemos que uma solução temporária se torne num erro permanente. Não prefiramos temer o improvável em vez do possível. Sejamos também parte dos Manés e Ronaldos deste planeta! Pois “o que é preciso não é melhorar a condição dos pobres, mas acabar com ela” (Anatole France).

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Publicado por André Rubim Rangel

Nascido em 1977, é "tripeiro" de gema: cidade e clube. É licenciado em Teologia (UCP), com um curso profissional de “Comunicação, Marketing e Assessoria de Imprensa” (AEP), mestre em Ciências da Comunicação – ramo Jornalismo (UFP).

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