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A oncolamúria de uma besta irónica

A oncolamúria de uma besta irónica

“Não é o sofrimento das crianças que se torna revoltante em si mesmo, mas sim que nada justifica tal sofrimento.” (Albert Camus)

Uma oncolamúria é uma lamúria como outra qualquer, assim o entendeu o colunista/humorista Diogo Quintela, quando recentemente, na sua rubrica no jornal Correio da Manhã (de nome “Fúteis Epitáfios” e desta vez intitulada “Oncolamúrias”) utilizou a ironia de mau gosto para comparar duas realidades atrozes que não têm comparação nem em pensamento, quanto mais na vida real: as crianças com cancro do serviço de pediatria do Hospital São João no Porto e os recentes ataques na Síria com armas químicas; e ainda consegue colocar na mesma equação o défice nacional. Não há uma balança para pesar o sofrimento alheio, tal como não há uma régua para medir o limite ético da ironia. Mas é plausível e aceitável a existência de um peso e de uma medida para a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, de sermos humanos perante o caos físico e emocional do sofrimento, o que vai deitar por terra esse estranho conceito a que chamam “liberdade de expressão” e atrás do qual se escudam as BESTAS que regurgitam qualquer coisa sobre tudo e todos.

Hoje em dia parece estar na moda sermos BESTAS IRÓNICAS – os que ironizam e os que riem da ironia “bestial” – e a comunicação social está cheia de estrelas humorísticas com pouco brilho, que por sua vez são lidas por leitores medíocres, aqueles bocadinhos de meteoritos que em nada acrescentam à atmosfera irrespirável de quem sofre, de quem realmente está a morrer, seja por não terem liberdade, saúde, ou por lhes ser negada a vida digna a que têm direito: as crianças e as suas famílias.

Os “epitáfios” nunca serão “fúteis”, apesar de, ironicamente, a lápide mostrar o tempo de vida do defunto simbolizado por um simples hífen estrategicamente colocado entre a data de nascimento e a de morte.

Os pseudo-humoristas e os que se riem da desgraça alheia merecem-se uns aos outros, camuflando as ruínas das suas próprias vidas, o que lamento profundamente. Afinal, devia ser mais forte o que nos une, do que aquilo que nos separa.

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Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

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