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A Lenda do Menino Chorão

Créditos da imagem: bragolin.weebly.com

As histórias inexplicáveis provocam o assombro e por vezes são tão assustadoras que parecem verdadeiras. Uma das narrativas que se enquadram no conceito de mito urbano que sempre me fascinou é a “Lenda do Menino Chorão”, relacionada com um quadro amplamente disseminado nas décadas de 80 e 90, o qual retratava um rapaz de semblante triste, se bem que belo, a chorar. A dada altura, devem ter existido milhares de cópias dessa imagem envolvida numa aura de mistério, tal não foi o seu sucesso. Quem não se lembra desta imagem?

O original foi pintado pelo italiano Giovanni Bragolin, que na realidade se chamava Bruno Amadio, artista que ficou famoso por retratar uma série de meninos e meninas chorosos. A aura de mistério que envolvia a imagem devia-se a inúmeras histórias contadas de boca em boca, pautadas por contradições, além de acontecimentos inexplicáveis abrilhantados por um ambiente de ocultismo. Lendas urbanas referentes a uma maldição aparecem principalmente nos países da América do Sul. Na Inglaterra, o jornal “The Sun” lançou uma caça às bruxas depois de vários relatos de bombeiros. Essas histórias começaram por volta de 1985, após vários incêndios misteriosos terem ocorrido. Quando os escombros foram peneirados, o único item que permaneceu sem vestígio de fogo foi uma pintura de um menino a chorar.

E assim teria começado a lenda, acrescentando-se pormenores terríveis como o do quadro “amaldiçoado” ser um retrato do seu próprio filho, pintado sob coacção da criança, que, tendo medo do fogo, foi obrigada a posar mediante a visão de fósforos acesos junto do rosto. O menino teria falecido juntamente com o artista, num grande incêndio, antes da obra ser finalizada, o que se veio a provar facilmente que não correspondia à verdade.

No entanto, a lenda continuou a ganhar força quando foram produzidas cópias em série do quadro, e começaram a surgir nos jornais, um pouco por todo o lado, notícias de grandes incêndios que destruíam por completo as casas. Ardia tudo, menos o quadro do menino chorão… Rapidamente surgiram campanhas públicas para que as reproduções da imagem fossem destruídas, numa tentativa de quebrar a “maldição”. Aliás, o fogo era o denominador comum, quer como causa do infortúnio, quer como panaceia para debelar o mal.

Muitas outras histórias místicas se contaram: que as outras crianças retratadas eram oriundas de um orfanato que foi também destruído pelo fogo; que as pinturas continham mensagens satânicas sublimares, que algumas crianças retratadas em posições estranhas e tinham as pupilas dilatadas, e por essas razões estariam já mortas; etecetera.

Pobre Giovanni Bragolin!…

Na verdade, o seu nome real era Bruno Amadio (1911-1981) e nasceu em Veneza, tendo-se interessado por arte desde muito novo. Não chegou a completar a sua formação e iniciou uma carreira de pintor por conta própria. Em termos estéticos, era um artista que seguia os clássicos, pintando obras de estilo rústico e realista: crianças, flores, naturezas mortas e cenas do quotidiano. Pensa-se que teria pintado entre 1000 a 2000 obras. Embora a maioria dos seus modelos pareça de baixa ascendência, eles foram escolhidos aleatoriamente entre escolas e parques de toda a cidade de Veneza, e através de anúncios em jornais. O pintor não coagia nem torturava as crianças retratadas, mas pedia-lhes que fizessem uma pose neutra ou triste. Ele sempre tratou gentilmente os seus modelos gentilmente, e as ”lágrimas” eram adicionadas depois do retrato ser terminado. Bragolin dificilmente teria recebido royalties pelas cópias feitas do seu trabalho, uma vez que a maioria dessas reproduções foi vendida principalmente nos Países Baixos, na Alemanha e na Escandinávia. Mas recebeu muitas críticas relativamente à sua pintura, caracterizada como kitsch. Amadio nunca esteve ligado à magia negra ou ao ocultismo. Era marido e pai, dedicado e carinhoso, um homem alegre dotado de senso de humor, com uma vida social rica.

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Publicado por Adília César

Educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação. Publicou dois livros de poesia: “O que se ergue do fogo”(2016) e “Lugar-Corpo”(2017) e tem colaborações dispersas em revistas, magazines e poezines, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6 e Nova Águia, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora do projecto literário “LÓGOS – Biblioteca do Tempo” e co-directora editorial da revista com o mesmo nome.

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